terça-feira, 10 de março de 2009

Aprendendo a ironizar

Todo blog é necessariamente professoral.

Este é um grande exemplo. Passo o tempo todo ensinando o leitor a se tornar melhor. Ensino como se portar à mesa, como falar com desconhecidos, como se comunicar com conhecidos... Enfim, eu o ensino a se aproximar ao meu nível - que pressuponho ser elevado em relação ao dele, já que é o leitor quem vem ao meu blog, não eu que vou ao blog do leitor.

Começarei uma série em que ensinarei explicitamente a usar certos artifícios que a vida humana oferece. Palavras, sentimentos, expressões - ensinarei tudo o que é indispensável para se viver superiormente, esnobando as pessoas salutarmente e se fazendo respeitar. O ponto de partida será o uso correto da ironia, porque tenho notado que ela vem sendo utilizada de maneira infame e pouco eficaz. Diria que somos analfabetos irônicos - que me perdoem pela gravidade deste diagnóstico. Como este blog é muitíssimo lido, sinto-me obrigado a ensinar o mundo a ironizar.

Vejam também que não provoco discórdia com a ampla divulgação da ironia. Assim como Maquiavel ensinou como são os métodos políticos e foram os oprimidos que se utilizaram deste conhecimento, eu ensinarei a ironia para quem ainda não ironiza - porque os ironizadores estão pisando em cima delas como um fumante pisa na bituca de cigarro. O livro de Maquiavel não é tão bom quanto será este manual, mas peço que o perdoem por não ter seguido a risca todos os meus conselhos.

Primeiro aviso: Não use a ironia contra gente que goste de você. A não ser que você queira que essa pessoa não lhe sinta mais nenhum apreço - mesmo assim não é recomendável. Até Bono Vox, que tem um bilhão de adoradores, não ironiza quem gosta dele, pois sabe do trabalho que teria para fazer a pessoa gostar de volta - seria mais fácil cativar outra pessoa do que recuperar uma desperdiçada.

Como você provavelmente não sabe ironizar corretamente, espere para ironizar somente depois de seguir todos os passos deste aprendizado. Tim tim por tim tim. Porque a ironia tem um poder de destruição que você às vezes não gostaria de ter. É como usar um lança-chamas a esmo, descontroladamente.

As primeiras lições serão chatas, como todas as primeiras lições que se aprende na escola. Mas são estritamente necessárias, pois são imprescindíveis para dominar a ironia posteriormente. Tenha paciência agora para ser recompensado depois.

Comecemos entendendo como surge a ironia na vida de uma pessoa.

O alfabeto irônico não começa com A, começa com O. É com esta letra que se começa a ironizar instintivamente na infância. A criança sente a necessidade da ironia quando percebe que não há nada que faça os adultos pararem de provocá-la. É preciso uma arma que faça o adulto cessar de chamar a criança de torcedora do time errado, ou de insistir que espinafre é gostoso. Há um jovem famoso cuja vida irônica começou assim:

- Filho, coma este palmito! É uma delícia. - disse a mãe.

- Ô! - disse o filho.

Quando se usa uma ironia, toda a raiva que o sujeito sente é direcionada e descarregada na vítima. A raiva que carrega o sujeito é como a gasolina que municia o lança chamas. E o sujeito descarrega quando lhe é conveniente. Por isso que a ironia quase sempre é desproporcional, porque não foi a vítima que carregou toda a raiva.

Assim o foi com a criança que acabou de dizer Ô. Ela não sentia tanta raiva neste momento, mas a descarregou totalmente na mãe.

A mãe mirou-o aterrorizada, mas de súbito percebeu que não estava mais lidando com um bebê; estava lidando com uma criança. Ela teve um repentino orgulho misturado com a sensação de perda que acomete os pais todas as vezes em que eles notam que a criança cresce. A partir de então, os pais se acostumam com a ironia do filho e passam a cativá-la como um masoquista que pede o tapa ao dominador.

- E aí, santista! - diz o tio ao sobrinho palmeirense.

- Sou santista, sim. Inclusive o Pelé é meu pai. Não sou negro porque
sou albino.

A família se choca agora, porque o caçula desenvolveu sutilmente a
ironia. Saiu do Ô para outras formas mais complexas, com frases cheias e completas. Continuemos no próximo capítulo.

2 comentários:

Fabio Chiorino disse...

post fantástico. A ironia deveria constar no conteúdo progrmático de todas as escolas públicas e particulares do ensino médio

brcdsp disse...

Ô!