Jorge e Armando nunca se conheceram.
Os bisavôs deles foram ambos à Primeira Guerra Mundial. O de Jorge pela Inglaterra, o de Armando pela Alemanha. Certa vez, numa troca de tiros, um acertou o outro sem intenções, pois detestavam a guerra e atiravam só por atirar. Mas ninguém morreu. Ninguém morre de um tiro brochado.
Uma vez, numa fila de supermercado, o avô de Jorge olhou pretensiosamente para a avó de Armando. A avó não percebeu, e o avô logo se esqueceu disso quando a moça do caixa disse:
- Sua vez, senhor!
Há cerca de vinte e dois anos, o pai de Jorge, frentista, abasteceu o carro do pai de Armando, advogado. E esta foi a primeira vez em que membros dessas duas famílias conversaram. Foi assim:
- Enche o tanque, meu chapa?
- Comum ou aditivada?
- Já tem gasolina aditivada em 1986?
- Ah, é! Então da comum, né?
- Isso, isso.
Hoje, Jorge fechou o carro de Armando numa subida. É por isso que Armando está com a camisa manchada de café.
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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Giorgio Armani #4
Jorge estava com uma espinha na bochecha. É ela a origem da marca amarela no segundo espelho do banheiro masculino.
Armando teve muitas espinhas na adolescência. São elas as causas do rosto esburacado.
Jorge resolveu tirar a espinha justo no banheiro do trabalho porque quando vê uma espinha não resiste. Pode ser que esteja olhando para a própria mesa com uma tábua de vidro e a veja no reflexo. Espinhas no rosto de Jorge têm vida muitíssimo curta.
Armando nunca mais teve espinhas. Mesmo assim, detesta vê-las em qualquer lugar. Se tivesse alguém íntimo o suficiente, tiraria-lhe qualquer espinha minimamente proeminente e a jogaria no lixo sumariamente.
Jorge estava satisfeito com o dia e alisava a barba preta. Seu chefe perguntou-lhe, pois, onde havia banheiro. Jorge indicou um banheiro distante, o mesmo em que estava Armando.
Armando limpava a espinha de Jorge no espelho do banheiro no exato momento em que o chefe entrou no banheiro. O chefe não reparou a presença de Armando, o que não evitou a vergonha enorme que este passou enquanto jogava o papel higiênico no lixo. Pensou: "Ele pensa que tenho espinhas!" Pensou ainda: "O pior é que ele pensa que eu tiro as espinhas no expediente!" É por isso que Armando está recatado hoje.
Armando teve muitas espinhas na adolescência. São elas as causas do rosto esburacado.
Jorge resolveu tirar a espinha justo no banheiro do trabalho porque quando vê uma espinha não resiste. Pode ser que esteja olhando para a própria mesa com uma tábua de vidro e a veja no reflexo. Espinhas no rosto de Jorge têm vida muitíssimo curta.
Armando nunca mais teve espinhas. Mesmo assim, detesta vê-las em qualquer lugar. Se tivesse alguém íntimo o suficiente, tiraria-lhe qualquer espinha minimamente proeminente e a jogaria no lixo sumariamente.
Jorge estava satisfeito com o dia e alisava a barba preta. Seu chefe perguntou-lhe, pois, onde havia banheiro. Jorge indicou um banheiro distante, o mesmo em que estava Armando.
Armando limpava a espinha de Jorge no espelho do banheiro no exato momento em que o chefe entrou no banheiro. O chefe não reparou a presença de Armando, o que não evitou a vergonha enorme que este passou enquanto jogava o papel higiênico no lixo. Pensou: "Ele pensa que tenho espinhas!" Pensou ainda: "O pior é que ele pensa que eu tiro as espinhas no expediente!" É por isso que Armando está recatado hoje.
Seção:
Giorgio Armani
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Giorgio Armani #3
Não sei se você já reparou, mas como é chique, o Armando! Ele passa o gel um pouquinho a mais só para deixar claro que passou gel; tem a sobrancelha depilada um pouquinho certinha demais só para deixar claro que depila a sobrancelha; é capaz até que irrite a pele do pescoço propositalmente só para que nós percebamos que acordou cedo para fazer a barba. Ele não é uma pessoa bonita. Mas seu esforço para ser uma vista agradável aos outros é merecedora de um aperto de mão na mão fofinha e lisa por causa do creme.
Jorge nunca se preocupou em passar gel no cabelo, por isso é que ele fica para a frente. Quando eu o vi pela primeira vez, achei que era um esforço que ele fazia, o de parecer desleixado. Quando eu lhe disse que a barba estava grande, ele fez cara de quem se esquece todas as manhãs de fazer a barba.
Na manhã desta segunda-fera, Armando não estava diferente de seu costume. Parecia uma grande alegria, a de chegar segunda-feira e poder enfim sair de casa para ser visto. A barba estava tão bem feita! O sapato novo, até escorregava um pouquinho.
Jorge estava com olheiras tão grandes, que é capaz que elas tenham passado em comprimento as orelhas. A barba estava tão mal cuidada, que o bigode já acumulava as catotas que vinham do nariz. É claro que a culpa do chão molhado é dele, que foi ele quem deixou a janela aberta na sexta-feira. E é claro que o chefe dele reclamou deveras, pedindo para ele pegar o cone amarelo que avisa os desavisados que o chão está molhado. Ele foi correndo e, grata surpresa, no caminho havia um desses cones no chão. Trouxe rapidamente.
Eu nunca achei que este cone servia para alguma coisa, senão para evitar processos. Mas acho que ele ajudaria Armando a desviar daquele chão úmido e evitar a queda. É por isso que ele está tão irritadiço nesta segunda-feira.
Jorge nunca se preocupou em passar gel no cabelo, por isso é que ele fica para a frente. Quando eu o vi pela primeira vez, achei que era um esforço que ele fazia, o de parecer desleixado. Quando eu lhe disse que a barba estava grande, ele fez cara de quem se esquece todas as manhãs de fazer a barba.
Na manhã desta segunda-fera, Armando não estava diferente de seu costume. Parecia uma grande alegria, a de chegar segunda-feira e poder enfim sair de casa para ser visto. A barba estava tão bem feita! O sapato novo, até escorregava um pouquinho.
Jorge estava com olheiras tão grandes, que é capaz que elas tenham passado em comprimento as orelhas. A barba estava tão mal cuidada, que o bigode já acumulava as catotas que vinham do nariz. É claro que a culpa do chão molhado é dele, que foi ele quem deixou a janela aberta na sexta-feira. E é claro que o chefe dele reclamou deveras, pedindo para ele pegar o cone amarelo que avisa os desavisados que o chão está molhado. Ele foi correndo e, grata surpresa, no caminho havia um desses cones no chão. Trouxe rapidamente.
Eu nunca achei que este cone servia para alguma coisa, senão para evitar processos. Mas acho que ele ajudaria Armando a desviar daquele chão úmido e evitar a queda. É por isso que ele está tão irritadiço nesta segunda-feira.
Seção:
Giorgio Armani
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Giorgio Armani #2
Jorge retirou um copinho de plástico e nele colocou café. Como estava muito quente, Jorge segurou o copinho por cima, onde se põe a boca. Levou direitinho até sua mesa, onde se esqueceu de tomar. Continuou a trabalhar como trabalha todos os dias.
Armando acordou sem vontade de fazer cocô. Tomou seu café da manhã normalmente, tomou banho e escovou os dentes olhando-se no espelho. Depois de se vestir, ainda sobrou um tempo, que foi aproveitado para ver um pouquinho de televisão. Como não passava nada de relevante, resolveu rumar ao trabalho um pouco mais cedo. Ao rodar a chave da porta de casa, sentiu uma vontade de fazer cocô. Ele pensou nessa hora que rodar a chave sempre dá vontade de fazer cocô. Sorte de quando isso acontece quando se chega em casa, não quando se sai. Olhou no relógio e só havia três minutos de folga. Tempo insuficiente para defecar.
Jorge telefonou para algumas pessoas, entre elas Bill Clinton. Mas Bill estava ocupado e prometeu que lhe telefonaria depois. Quando ia colocar o telefone no gancho, Jorge esbarrou no copinho de café, já frio. Derrubou todo pela mesa. Seu chefe direto acabara de entrar na sala, e quando viu o café todo esparramado, ordenou a Jorge que fosse pegar papel no banheiro. Jorge correu até lá e, como não havia papel de secar as mãos, foi obrigado a pegar papel higiênico. Havia cinco cabines, escolheu a primeira porque ninguém resolveria utilizar a primeira cabine para defecar. Pegou um pouco de papel higiênico que se revelou insuficiente. O chefe, enlouquecido, ordenou que pegasse o papel higiênico inteiro. A mesa estava limpa e Jorge se esqueceu de levar o papel higiênico de volta.
É este o motivo de Armando estar com esta cara incomodada e este mau cheiro. Na hora do almoço, foi correndo ao banheiro. Utilizou a primeira cabine porque era a mais próxima.
Bill Clinton nunca mais telefonou.
Armando acordou sem vontade de fazer cocô. Tomou seu café da manhã normalmente, tomou banho e escovou os dentes olhando-se no espelho. Depois de se vestir, ainda sobrou um tempo, que foi aproveitado para ver um pouquinho de televisão. Como não passava nada de relevante, resolveu rumar ao trabalho um pouco mais cedo. Ao rodar a chave da porta de casa, sentiu uma vontade de fazer cocô. Ele pensou nessa hora que rodar a chave sempre dá vontade de fazer cocô. Sorte de quando isso acontece quando se chega em casa, não quando se sai. Olhou no relógio e só havia três minutos de folga. Tempo insuficiente para defecar.
Jorge telefonou para algumas pessoas, entre elas Bill Clinton. Mas Bill estava ocupado e prometeu que lhe telefonaria depois. Quando ia colocar o telefone no gancho, Jorge esbarrou no copinho de café, já frio. Derrubou todo pela mesa. Seu chefe direto acabara de entrar na sala, e quando viu o café todo esparramado, ordenou a Jorge que fosse pegar papel no banheiro. Jorge correu até lá e, como não havia papel de secar as mãos, foi obrigado a pegar papel higiênico. Havia cinco cabines, escolheu a primeira porque ninguém resolveria utilizar a primeira cabine para defecar. Pegou um pouco de papel higiênico que se revelou insuficiente. O chefe, enlouquecido, ordenou que pegasse o papel higiênico inteiro. A mesa estava limpa e Jorge se esqueceu de levar o papel higiênico de volta.
É este o motivo de Armando estar com esta cara incomodada e este mau cheiro. Na hora do almoço, foi correndo ao banheiro. Utilizou a primeira cabine porque era a mais próxima.
Bill Clinton nunca mais telefonou.
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Giorgio Armani
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Giorgio Armani
Armando, garboso, alto e careca, entrou no banheiro público com uma incomensurável vontade de defecar. Nunca evacuava fora de casa, por considerar este um hábito sagrado, quando lê o jornal ao mesmo tempo em que aproveita a delícia que se é tirar de si algo que pesa.
Quando criança, foi um médico à sua escola e lhe esclareceu que doenças podem ser contraídas quando se senta em uma privada pública. O médico mostrou – mostrando fotos que “não lhe deixavam mentir” - que estas doenças podem desativar o poder sexual de uma pessoa sadia com verrugas por toda a genitália.
Com um raciocínio brilhante, Armando, no banheiro, vê cinco cabines da porta até a janela. Notou que a primeira era a mais utilizada, a segunda um pouco menos, a terceira um pouco menos que a segunda, a quarta ainda menos, e que a quinta, pela distância, quase nunca era utilizada. E se dirigiu a ela para defecar sem contrair doenças.
Minutos antes, Jorge – um sujeito bonachão, de muito respeito, pois estava acima do peso - foi ao mesmo banheiro. O médico que foi à escola de Armando nunca foi à escola de Jorge fazer palestras. Nem este médico, nem nenhum outro. E Jorge tinha o hábito de fazer cocô fora de casa. Ele não considerava este um ritual sagrado. Ele nem lia jornais. Evacuar era simplesmente tirar de si uma ou duas coisas marrons. Um hábito, para ele, intranscendente.
Mas ultimamente Jorge percebeu em seu saco escrotal, uma ou duas verrugas. Não foi ao médico porque tinha medo. Como seu medo era pessoal e ninguém tinha culpa ou relação com ele, Jorge entrou no banheiro e viu cinco cabines. Certamente a primeira era a mais utilizada, a segunda um pouco menos, a terceira menos ainda, a quarta menos e a quinta devia ser raramente utilizada. Pensou:
- Vou na quinta, porque essas verrugas podem ser transmissíveis.
Esta é a causa da verruga marrom que apareceu no saco escrotal de Armando na última quinta-feira.
Quando criança, foi um médico à sua escola e lhe esclareceu que doenças podem ser contraídas quando se senta em uma privada pública. O médico mostrou – mostrando fotos que “não lhe deixavam mentir” - que estas doenças podem desativar o poder sexual de uma pessoa sadia com verrugas por toda a genitália.
Com um raciocínio brilhante, Armando, no banheiro, vê cinco cabines da porta até a janela. Notou que a primeira era a mais utilizada, a segunda um pouco menos, a terceira um pouco menos que a segunda, a quarta ainda menos, e que a quinta, pela distância, quase nunca era utilizada. E se dirigiu a ela para defecar sem contrair doenças.
Minutos antes, Jorge – um sujeito bonachão, de muito respeito, pois estava acima do peso - foi ao mesmo banheiro. O médico que foi à escola de Armando nunca foi à escola de Jorge fazer palestras. Nem este médico, nem nenhum outro. E Jorge tinha o hábito de fazer cocô fora de casa. Ele não considerava este um ritual sagrado. Ele nem lia jornais. Evacuar era simplesmente tirar de si uma ou duas coisas marrons. Um hábito, para ele, intranscendente.
Mas ultimamente Jorge percebeu em seu saco escrotal, uma ou duas verrugas. Não foi ao médico porque tinha medo. Como seu medo era pessoal e ninguém tinha culpa ou relação com ele, Jorge entrou no banheiro e viu cinco cabines. Certamente a primeira era a mais utilizada, a segunda um pouco menos, a terceira menos ainda, a quarta menos e a quinta devia ser raramente utilizada. Pensou:
- Vou na quinta, porque essas verrugas podem ser transmissíveis.
Esta é a causa da verruga marrom que apareceu no saco escrotal de Armando na última quinta-feira.
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