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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Entrevista de emprego

Esperei por três minutos na sala de espera, quando a secretária já me anunciou para o patrão. É claro que me vem à cabeça que esta empresa deve ser diferenciada. Aliás, não só a empresa, como o patrão também. Ele não gosta de deixar as pessoas esperando por muito tempo. Na verdade, não me deixou esperando nadinha, porque havíamos combinado para as quatro da tarde, e eu cheguei às três e cinquenta e sete.

Ele mesmo abriu a porta, e pensei que ele pode ser gay, mas a barba mal feita suspendeu, pelo menos por enquanto, essa impressão. Sentei, ele também. A cadeira dele não era nem tão melhor que a minha. A única diferença perceptível era a de que a dele se movimentava muito mais para trás, além de ser vermelha.

- Então você é o André Ferreira.

- Não, não. André Pereira, com pê e um érre só.

- Não é Ferreira?

- Não.

- Certeza? Você não é o André Ferreira?

- Certeza, cara.

Ele apertou um botão no centro da mesa, e a secretária apareceu imediatamente. Ele pediu para eu dizer meu nome.

- André Pereira.

Ele olhou para a secretária, e ela fez uma cara de espanto, com a mão na frente da boca, como se fosse uma pin up. E ela saiu da sala.

Apesar de eu ter dito meu nome duas vezes, o homem à minha frente não disse nenhuma vez o nome dele. Ele pôs o cotovelo na mesa, apoiou a cabeça no braço, e disse qualquer coisa, como:

- E aí. Me diz, sei lá, sobre sua vida. Onde você já trabalhou antes?

Eu já tinha suspeitado, e agora eu tive a certeza de que a secretária se confundiu. Chamou para a entrevista o André Pereira no lugar do André Ferreira.

- Eu já trabalhei num prostíbulo.

- É mesmo? Fazia assessoria de imprensa?

- Não, não. Prostíbulos não têm assessores de imprensa.

- Então você fazia o site?

- Prostíbulo não tem site.

- Sei lá, então o que você fazia no prostíbulo?

- O que uma pessoa faz num prostíbulo, cara pálida?

Com muita dignidade, peguei minha Samsonite, levantei e fui embora sem me despedir.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Gravatas, borboletas, e gravatas borboleta

Sobre as gravatas

Eu já disse aqui umas três vezes, e por isso não faz mal dizer pela quarta vez: as gravatas representam para o vestuário o que o bigode representa para a face.

Não entendeu? Eu preciso conquistar novos leitores, é por isso que explicarei. Quando um homem deixa a barba crescer, o faz somente por desleixo. Não é para embelezar a cara. Aliás, pode até ser, mas não parece que é. Aquilo é natural para o sexo masculino: crescem pêlos na face. Agora, quando ele deixa simplesmente o bigode, sinaliza logo que tem uma preocupação estética com os pêlos faciais. Da mesma forma, a gravata.

O homem veste a camisa porque é preciso vestir alguma coisa. Põe o terno porque faz frio. E a gravata? A gravata ali serve como um enfeite da mesma forma que o bigode. Sim?

Há gravatas de todas as cores, todos os tamanhos, todos os tecidos. Não há, porém, gravata que seja bonita. Também pudera. Os vestuários ornamentais só ficam bem nas mulheres. E eu nunca vi mulher de gravata.


Sobre as borboletas

A borboleta é o símbolo maior da frescura na natureza.

Não sei se Deus, não sei se Darwin, ou se nenhum dos dois. Mas alguém não estava satisfeito com todas as belezas da floresta, e resolveu criar um adorno, alguma coisa que desse ainda mais beleza ao mundo. E o mundo, à época da criação, era aquela coisa doce. Posso dizer até aquilo que nossas tias dizem para a gente quando temos três anos: - "Se melhorasse, estragaria".

Pois foi preciso um defeito para compensar a borboleta, que melhoraria o mundo e o estragaria. Daí surgiram as lagartas, para dar origem a elas.

Acompanhem o raciocínio: se as gravatas representam para o vestuário o que o bigode representa para a face, a lagarta representa para o mundo animal o que o cocô representa para o mundo vegetal.

Sim, sim. A lagarta é o adubo necessário, repugnante e inconfessável da borboleta.


Enfim, sobre as gravatas borboleta

Quando eu disse aquilo sobre a semelhança entre bigode e gravata, imagino que o leitor tenha imaginado uma gravata convencional, daquelas que lembram uma seta rumo ao pênis. Simplificaria se pedisse que o leitor guiasse sua imaginação à gravata borboleta.

Este é um tipo de gravata que lembra até fisicamente o bigode. Coloque uma camisa branca e uma gravata borboleta preta, deixe crescer os pêlos abaixo do nariz e acima da boca, que você terá dois bigodes em seu corpo.

Mas tome cuidado: a gravata borboleta lembra muito, desculpe, o bigode de Hitler.

O fim de um blog

Como um blog termina é mais difícil dizer. Mas o começo é sempre muito parecido.

O sujeito se acha criativo, pensa que é genial, e tem a certeza de que é um desperdício ter todas as suas ideias guardadas para ele mesmo. Então, como as revistas lhe recusam espaços, os jornais pensam que ele tem a relevância de um suicida e, posso dizer, nem a mãe do sujeito desconfia que ali exista algum talento, ele resolve criar um blog.

Aí, mesmo sonhando com a entrevista no Programa do Jô, ele jura não ter a pretensão de ficar famoso. Diz que faz aquilo somente por generosidade! Que ele não é egoísta como alguns gênios que existem por aí, que escondem o conhecimento dos outros. Nada! É mais que uma obrigação que as outras pessoas desfrutem todo esse talento. Assim como a Brigitte Bardot não coloca uma burca para andar por aí, ele não bloqueia suas idéias.

Alguns posts criados, o próximo passo é comentar descompromissadamente em blogs de respeito. Nosso herói cita seu blog com um despropósito menor do que se pedisse por favor. Elogia o dono do blog famoso como se ele Rubem Braga fosse. "Suas crônicas de seu dia a dia são muito divertidas. Às vezes eu bocejo enquanto as leio, mas não se engane! É porque durmo muito pouco de noite. Não vá pensar mal de mim e de seu blog, por favor. Ah, eu tenho um blog. Se você entrasse seria uma honra. Uma honra, não! Muito mais que isso. Mas eu não conheço palavra maior do que honra para essa situação, então fique sabendo que seria mais que uma honra, ou duas." E em seguida vai o endereço do blog.

O dono do blog famoso fica, claro, muito lisonjeado. Ele é muito seguro de si, e não vai imaginar, nunca, que o elogio do blogueiro iniciante veio por interesse. Os outros recebem elogios por interesse. Ele só recebe por merecimento. Deve ser pela posição dos planetas, ou pela foto descolada que tem lá em cima, à esquerda, que repele os oportunistas. Mas eu estava falando de nosso amigo blogueiro iniciante.

Eu ainda não dei nome a este blogueiro. Oswaldo, com dáblio. O dele era com vê, mesmo. Mas ele inventou o w para a internet (www).

Oswaldo recebe um elogio no blog famoso, e toma isso como incentivo, porque muitas pessoas começam a entrar, a comentar, e quando ele percebe, já está postando várias vezes ao dia. Mais! Enquanto não posta, pensa nos futuros posts. Chega até a receber alguns comentários despretensiosos de gente pedindo para linkar o blog dele. E ele linka, porque não se esqueceu da generosidade anterior.

Passa um tempo, porém, e a empolgação passa. Oswaldo se cansa do próprio blog, dos próprios pensamentos, e posta somente uma vez a cada semana. Depois uma vez por mês. E quando percebe, o blog que ficou famoso em tão pouco tempo, já é esquecido em tempo menor ainda.

O leitor deve achar, agora, com razão, que este post sinaliza o fim deste blog. Eu também pensaria.

Mas é com imensa alegria que digo que não, não é o fim deste blog. Pelo contrário! Ele existe há apenas dois anos, e pretendo mantê-lo pelo menos nos próximos cinquenta. Vocês pensaram isso somente pela história comovente de Oswaldo, que poderia ser uma analogia com a minha. Mas não é.

Agora esqueçam o Oswaldo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Fatinha

Ela subiu no meu colo devagarinho, enquanto eu estava distraído. Tão distraído, que me esqueci de que não gosto de gatos. Detestava gatos, e quando passava por um na rua, distanciava sem a preocupação de parecer casual.

Ah, sim. Quem subiu no meu colo foi uma gatinha.

Se esfregou em mim, e eu não sei por quê, mas fiz um carinho nela também. Fiz um carinho como se meu cachorro não tivesse morrido, e fiz o carinho como se gatos fossem que nem cães. Ou melhor: fiz um carinho como se ela não fosse gato.

Mas não parou de se esfregar em mim, e o nariz dela é rosa. Fora que não parava de espirrar feito quem está com gripe brava. Se ela não tivesse o nome de Fatinha por causa de uma tia da minha esposa, sugeriria o nome de Vick, por causa do Vaporubi.

Então a mãe da minha esposa disse que a gata faz isso por ciúmes da criança mais linda. A mãe disse que ela fez por ciúmes, não por mim. Eu pensei que tudo bem. É um ciúmes muito bem aplicado e muito gostosinho. Pode se enciumar em mim, eu disse em pensamento para a gatinha.

Meu tronco ainda estava tenso e retesado. Notei que era uma falta de cumplicidade com a coitadinha da gatinha, que se contorcia em meu colinho. E voltei à minha postura primata.

A minha esposa me olhou com ciúmes e disse:

- Ela é assim com todo mundo!

Pois eu olhei para ela com minha cara que diz que é um absurdo que ela sentisse ciúmes, já que é uma alegria gostar de tudo que é dela, e, enciumado da gatinha, não disse, mas poderia ter dito:

- Mas eu não sou assim com ninguém!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Mais famosos com a letra B

É muito difícil lidar com famosos.

Você, meu leitor, imagine que selecionei ao acaso leitores com a letra B para serem publicados e coincidiu de todos serem famososAgora, outros famosos com a letra B reclamaram efusivamente! Ei-los:

Bruno Aleixo (Cidadão português)

Caro André. É pena que não tem atualizado seu blog. Assim não tenho do que falar mal. Atenciosamente, Bruno Aleixo.


Beakman (O maior cientista do mundo)

André, meu caro. Ultimamente tenho feito as experiências para passar o tempo, e já realizei todas. Será que você não poderia voltar a atualizar seu blog? Não aguento mais meu laboratório! Beakman


Beavis (Adolescente americano que faz dupla com Butthead)

Heh... hehehe... heh...


Espero que não seja mais preciso falar sobre esse assunto. Não sei vocês, mas eu não aguento mais.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A prova

O bom leitor sabe que não gosto de comentar os comentários feitos neste blog.

Eu, por minha vez, sei que isso afasta muitas pessoas da leitura deste espaço. Internet é interatividade, dizem. Eu sei que é. Se milhões de pessoas comentam todos os dias, o que aconteceria se eu fosse uma pessoa interativa?!

Pois ontem recebi um sem número de comentários duvidando de minha modéstia e de minha honestidade. Os que me acham imodesto dizem que selecionei os exemplos de ontem (Bill Clinton, Bill Gates, Brüno, Bruno Gagliasso, Bob Marley, Baden Powel e Barack Obama) propositalmente, somente para que todos saibam que muitas celebridades entram aqui. Os que me chamam de mentiroso acham que não entra ninguém famoso aqui, e que na verdade essas pessoas sequer conhecem este blog.

Aos primeiros, posso comprovar minha integridade pelo alfabeto. Não sei se elas repararam, mas eu cheguei até a dizer que todos os selecionados para o exemplo têm nome que começa com a letra B. Há uma lista de gente que comenta aqui, e eu, ingenuamente, separei algumas pessoas à toa que têm o B como a primeira letra do nome. Agora olhando posso ver que algumas são realmente famosas. Muito me surpreendeu a cultura geral dos leitores. Eu não sabia que vocês conhecem Bill Gates.

Agora, aos que me chamam de mentiroso, escreverei aqui os comentários de cada uma dessas pessoas para lhes mostrar que eu só falo a verdade.


Bill Clinton (Ex-presidente estrangeiro)

Caro André. Quando é que seu blog voltará a nos proporcionar momentos aprazíveis de leitura e reflexão? Confesso que eu não aproveito as palavras que você diz somente enquanto as leio, mas também depois, porque passo o dia pensando nos seus textos. Você aceita pagamentos para escrever? Se quiser, peça a alguém, porque eu fiquei pobre depois que larguei a presidência de meu país. Um abraço efusivo e apertado, Bill Clinton.


Bill Gates (Humorista)

André Ursípedes. Você deve saber que eu encerrei as atividades na minha empresa há algum tempo. Assim que passei a ficar mais tempo em casa, a única razão de entretenimento de meu tempo é seu blog. Agora que você parou de atualizar, não posso me entregar a outra coisa senão ao tédio. Volte logo, por favor! Bill Gates


Brüno (Apresentador gay)

Eu vi que você entrevistou o Dostoievski. Você poderia, por favor, me passar o contato dele? Brüno.


Bruno Gagliasso (Ator)

André, eu tive uma ideia ótima. Como você deve saber, eu, Bruno Gagliasso, sou uma pessoa muito politizada e ativa. Se você escrevesse Fora Sarney no seu blog, ele certamente não resistiria a esta pressão e deixaria nosso senado. Caso você não saiba, ele é corrupto. Mas você parou de atualizar o blog... Bem, quando voltar, escreva fora Sarney, por favor. Bruno


Bob Marley (Intérprete, compositor, cantor e maconheiro)

My friend, você viu que escreveram um livro chamado Marley & eu? Mas não tem nada a ver comigo. Será que você não conseguiria escrever um livro com o mesmo nome, mas que retratasse a nossa relação de reggae e amizade? Pense nisso. Bob Marley


Baden Powel (Cantor e compositor)

Não sei como vim parar aqui.


Barack Obama (Atual presidente estrangeiro)

André, você deve ter reparado que a economia americana voltou a andar. Sabe por que isso aconteceu? Porque você parou de atualizar seu blog, e eu passei a dedicar a maior parte de meu tempo às atividades que meu emprego requer. Volte logo. Não aguento mais trabalhar. Abraço, Barack


Viram, agora? Cada um tem sua grafia inconfundível. O que falta é agora me acusarem de inventar também os comentários. Por favor.

Porém, o que quero lhes dizer é outra coisa. Eu não precisaria nunca atualizar este blog. Vocês podem e devem lê-lo no arquivo. Cada texto escrito aqui tem tamanha profundidade, que pode ser lido diversas vezes com gosto de novidade. A cada leitura, um detalhe novo e essencial é descoberto.

Abram os arquivos, seus preguiçosos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Por que este blog não tem sido atualizado

Muitas pessoas, todos os dias, vêm perguntar por que este blog nunca mais foi atualizado.

Eu mesmo, numa terça-feira bandida, entrei neste blog e estava postando um comentário perguntando a mim mesmo por que tamanha ausência de atualização. Neste momento percebi a rara qualidade deste blog: ele é tão universal, que serve de leitura até para quem o escreve.

Listarei sete pessoas quaisquer, retidas ao acaso, que comentaram neste blog sentindo falta das atualizações:

Bill Clinton (Ex-presidente estrangeiro), Bill Gates (Humorista), Brüno (Apresentador gay), Bruno Gagliasso (Ator), Bob Marley (Intérprete, compositor, cantor e maconheiro), Baden Powel (Cantor e compositor) e Barack Obama (Atual presidente estrangeiro).

Como vocês podem ver, fui totalmente imparcial. Eu poderia ter selecionado, entre todos os comentários, gente famosa que aqui comentou só para escancarar o sucesso deste blog entre as celebridades. Porém, como sou modesto e acanhado, apanhei apenas alguns comentários de gente que comece com a letra B.

Bem, que o blog não tem sido atualizado, todos sabem. O que ninguém sabe é o motivo disso.

Preguiça.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Como popularizar um blog - parte 2

Antes que seja necessário responder perguntas, informo que a parte 1 deste post foi escrita pensando em ser absoluta e irrevogável. Ou seja. Naquela distante dois de setembro de 2008, quando ensinei o leitor a popularizar um blog, subestimei minha capacidade cognitiva e publicitária, e achei que jamais me brotaria na cabeça novas técnicas de popularização de um espaço na internet.

Pois é. Enganei-me. Quando surgiu em meu cérebro uma nova técnica, relutei em aceitá-la. Mas a apliquei em favorecimento de meu blog, e funcionaram veementemente. Penso que esta é a versão definitiva do virtual manual de popularização de um blog. Mas eu não me subestimarei novamente. Quem subestima uma vez é burro; quem subestima duas vezes, é otário (Anote este ditado para humilhar alguém). É por isso que temos agora o segundo bloco da popularização de um blog.

Cabe também dizer e ressaltar que esta é, como diz o nome e como já repeti algumas vezes, a segunda parte da popularização de um blog. Por isso, as primeiras técnicas não devem jamais ser abandonadas. Elas são complementares, nada mais.

Para popularizar um blog, aprenda que é necessária uma dose de desonestidade. Reconheço que é um dilema moral, mas pretendo lhe mostrar que valerá a pena enganar alguém se seu blog for de excelente qualidade. Menos que isso, o popularizador tornar-se-á um sujeito desonesto e desprezível.

Para isso, é preciso fazer várias contas de e-mails em provedores diferentes. Invente nomes, e, de preferência, sobrenomes convincentes e usuais. É preciso que quando alguém veja seu e-mail falso, jamais pense tratar-se de uma mentira - e um ótimo método para isso é utilizar nomes comuns. Porque, ao inventar coisas, costumamos ser criativos. Então alguém que inventasse um Roberto Silva jamais seria descoberto.

Com seus e-mails falsos (é bom anotar todos com as respectivas senhas), envie mensagens a blogueiros famosos recomendando seu blog como se fosse de um terceiro. Compreendeu a jogada? Se você fosse uma pessoa honesta, enviaria e-mails a blogueiros famosos pedindo para que eles lessem seu blog. Mas isto é ineficaz, uma vez que blogueiros famosos, pasmem, são altivos e adoram esnobar. Eles podem até ler seu blog e gostar dele, mas jamais admitiriam.

Quando uma mensagem vem de um terceiro, porém, o blogueiro famoso visitará seu blog ávido por novidades. E, caso tenha conteúdo interessante, nosso colega famoso indicará no blog dele.

Eu mesmo já fiz vários e-mails falsos para recomendações a outros blogueiros, mas foi só para testar! Quem conhece meu blog sabe do número de visitantes que comentam aos borbotões, todos os dias, neste espaço. Gostaria até que entrasse menos gente. Mas a fama é algo que não se pode controlar.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Telefonema de Obina

Era quase meia-noite, quando meu telefone tocou. Eu não ia atender, não estivesse escrito este nome no visor de meu celular: Artilheiro Obina. Era o craque quem me telefonava. E eu não sou daqueles que deixam craque esperando.

- Fala, Mestre Obina!

- Como você sabe que sou eu?

- Porque comprei acarajé! E você tem um faro apurado de acarajé.

- É... é... Mas eu liguei para dizer que fiz um gol!

- Ah, é para isso que me ligou? Mais nada?

- É! Fiz um gol pelo Palmeiras!

- Obina. Entenda uma coisa. As pessoas nunca te darão valor se você não tiver um mínimo de arrogância. Ninguém leva a graça a sério. Você tem que marcar os gols como se não se importasse, como se isso lhe fosse natural.

- Mas eu gosto tanto de marcar gol!

- Eu sei que gosta. Todos gostam. O que não pode é parecer que gosta tanto. Pode arrumar outro assunto para esta ligação!

- Tá. Deixa eu pensar.

Passamos dois minutos sem uma palavra. Eu estava distraído, prestando atenção na televisão. Obina, não. Era possível perceber que ele pensava em um segundo assunto para esta ligação.

- Já sei! Liguei para perguntar se você deixou um acarajé para mim ou comeu todos!

- Comi todos, brou. Não sabia que você queria.

- Ah... Então era isso! Abraço!

- Outro.

Desligamos. Ele, eu não sei. Mas eu comi o último acarajé do pote.

terça-feira, 19 de maio de 2009

O exame

O doutor recebeu os exames das mãos da própria mãe do menino. Ela estava muito tensa, e posso dizer até que lhe tremiam as mãos. O olhar, que na maioria do tempo era distraído, agora estava fixo naquele homem de branco.

- Doutor! Fale logo, doutor!

Roberval, era o nome dele, do médico. Ele fez medicina para que lhe pudessem chamar de outra coisa, de doutor. Talvez lhe fosse menos despendioso ser um cobrador, mas ônibus sempre lhe causou enjôo.

- A senhora vai bem? - perguntou Roberval, se aproveitando da agonia daquela mulher.

- Bem, bem.

- Temos novidades? - continuou, com os exames nas mãos, sem demonstrar que pretendia abri-lo.

- Depende do que está aí dentro - respondeu Marlene, apontando o envelope.

O menino? O menino estava impassível, como se o exame fosse de um desconhecido.

- Como o menino tem passado? Os sinais cessaram?

- Não sei. outro dia achei o rosto dele avermelhado, já ia ligar par ao senhor, mas vi que o menino só estava com vergonha. Terça-feira achei que ele tinha hipotermia, mas foi só aquecer a piscina que passou. Ontem ele rejeitou Coca-Cola, mas logo vi que estava sem gelo. Doutor, eu estou apavorada, doutor!

- Entendo. Coca sem gelo, não dá.

Roberval enfim se concentrou no exame. Olhou com gravidade o envelope branco. Começou a abri-lo, mas era necessário tirar aquela cola. Parecia impossível. Rasgou o envelope e não abriu.

- A senhora tem uma tesoura? - perguntou, seguindo a tese própria de que as mulheres bonitas têm tudo na bolsa.

- Não, doutor!

Ele olhou para Marlene mais criteriosamente e percebeu que ela não era bonita assim.

Pegou o telefone e falou rapidamente:

- Suzana! Traga já uma tesoura.

Os dois se encaravam. De repente Marlene se lembrou de que o menino estava ao lado dela. Abraçou-o fortemente. Roberval olhava como se a cena fosse cômica.

- Calor.

- É, calor.

Enfim, a tesoura chegou. Suzana sorriu para a mãe, e fez uma careta infantil ao menino, que achou graça.

Robeval abriu o exame, e logo falou:

- É, dona Marlene. Seu filho definitivamente não poderia ser um tubarão.

A mãe não se mexeu.

Marlene, notando que Roberval esperava uma reação obrigatória para seguir adiante, perguntou:

- Por que, doutor?! Meu filho não poderia ser um tubarão?!

- De jeito nenhum! Nem pensar! O que ele tem, é alergia a peixe!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Entrevista de emprego

Chego dez minutos antes do horário marcado porque é assim que os ingleses fazem. E como são confiáveis, os ingleses. Mas seria só me ouvir falando, que se perceberia que não sou inglês. O entrevistador só ouviria minha voz quarenta minutos depois, porque ele se atrasou trinta minutos, talvez para mostrar que aqui não é a Inglaterra, e que ele não vai cair nessa ladainha de candidato a emprego metido a inglês.

- Bom dia. - diz, como quem não está atrasado.

- Olá - digo, como quem não estivesse com raiva do outro estar atrasado.

- Li seu currículo e o texto que você enviou. É um texto muito ousado para um currículo tão raquítico.

Minha cara de bobo não demonstra se engoli o elogio ou a crítica. Acho que ele elogiou o texto para que eu quisesse trabalhar na empresa, e desqualificou o currículo para que não exigisse um bom salário.

- Ah, você gostou do texto?

- Não, não. Eu só disse que é um texto ousado. Um bom texto pode ser ousado ou não.

- Eu não disse que você gostou do texto. Eu só perguntei se você gostou.

- Ah, sim. Gostei.

Poderia sorrir neste momento, mas sei que ele certamente aproveitaria para outra crítica, e isso o convenceria de que não sou um bom candidato. Explico: A necessidade do entrevistador de criticar o candidato o convence de que o candidato não presta. Por isso é preciso dar o menor número de brechas para críticas.

Quando ao currículo raquítico, arrependi-me veementemente por não ter diminuído as margens e aumentado a fonte. Os entrevistadores dão muito valor ao tamanho do currículo, porque provavelmente são pessoas de idade mais elevada. Estas pessoas se ressentem dos mais jovens que podem enxergar letras pequenas.

- Você está aqui porque preciso de alguém para me ajudar nesta revista sobre vulcões. Por isso preciso saber se a sua personalidade se enquadra com o tema.

- Sim, sim. Entendo. A revista é ótima. Tem um artigo sobre maravilhoso a baixa periculosidade das lavas em regiões inóspitas.

Este comentário foi programado. Li a revista no último sábado e percebi que este artigo havia sido escrito pelo entrevistador.

- É muito bom, esse artigo. Foi muito elogiado por toda a revista. Leitores enviaram cartas, também. Vamos às perguntas. O que você pensa sobre vulcões?

- Deixe-me pensar.

- São respostas rápidas, para que eu possa avaliar precisamente a sua personalidade. E para que o candidato não enfeite muito, também.

Porra.

- Os vulcões, para mim, são uns injustiçados. Porque eles nunca atacam de surpresa, apesar de as pessoas se surpreenderem com eles. O vulcão está lá, mesmo que inativo. Sempre já há possibilidade de ele estourar. Os vulcões são muito sinceros.

O entrevistador franze a sobrancelha, não sabendo ainda se aprovou ou não minha impressão sobre os vulcões.

- O que você mudaria?

- Como assim?

Ele me olha nos olhos, espantado com meu retardo mental por não entender esta pergunta.

- Digo... O que você mudaria?

- Mudaria em quê? No mundo? Sobre os vulcões?

- O que você mudaria no mundo sobre os vulcões?

- Calma. Preciso pensar novamente.

- E eu preciso novamente avisá-lo que a resposta precisa ser rápida.

- Então vai para a puta que te pariu! – não disse.

- Eu mudaria o posicionamento dos vulcões. Deixaria todos debaixo do mar, para que quando entrassem em erupção, só queimassem aqueles peixes cegos. – disse.

Ele me olha com mais espanto ainda. Eu devolvo o espanto. Ele olha para baixo. Ufa.

- Qual é a sua disponibilidade para trabalhar aos finais de semana?

- Nenhuma.

- E horas extras?

- Nenhuma.

- Olha. Eu fiz essas perguntas para saber do seu comprometimento com a empresa. O contratado não precisará nunca fazer horas extras ou trabalhar aos finais de semana.

Provavelmente o leitor acha que neste momento senti um arrependimento profundo. Mas não senti. Como eu adivinharia?

Quando se vai fazer uma entrevista de emprego, há duas opções que variam com o desespero. Você pode se mostrar maravilhoso como não é, ou tosco como é. Claro que a chance de ser contratado se mostrando maravilhoso, é maior, mas depois há uma grande possibilidade de perceberem que você não é maravilhoso, e o demitirão por isso.

A equação é a seguinte: se o candidato se mostrar modesto, a chance de ser contratado é menor, mas se conseguir a vaga, a chance de permanecer no emprego é quase plena. Se o candidato de mostrar maravilhoso, a chance de ser contratado é muito maior, assim como a chance de não permanecer no emprego.

- Por que você veio de bermudas? - pergunta-me, de supetão.

- Porque está calor.

- Aqui usamos ar-condicionado. Se você for contratado, estaria disposto a vestir calças?

- Sim, sim. No anúncio desta vaga, não estava escrito que se usa ar-condicionado nesta empresa.

- Mas utilizamos.

Eu poderia continuar com a discussão, mas não queira discutir com um entrevistador. Por mais que você tenha razão, ele não vai admitir. Ou seja: Como ele está numa posição superior à sua, é ele quem tem a razão em todas as instâncias, e discutir seria como tentar permanecer no erro à força.

- E gravata? Por que não veio de gravata?

- Porque não combina com bermuda.

- E por que você veio de bermuda?

- Acho que o senhor já fez uma pergunta semelhante.

É chegada a hora na entrevista em que o candidato tem que se impor e perguntar as coisas da empresa. Aí a situação se inverte, e o entrevistador percebe que o candidato também escolhe a empresa.

- Qual é o salário? - pergunto.

- Você é do tipo de jovem que só trabalha pelo salário?

- Não. Eu só perguntei o salário. Vai que vocês sejam escravistas.

- Eu tenho cara de escravista? – me pergunta, como se fosse um gênio.

- E eu tenho cara de ganancioso? – respondo, como se fosse um humorista.

Silêncio.

- Queira, por favor, me dizer o salário?

- Mil. - diz, com vergonha.

É por isso que ele não queria dizer.

- Mil? - pergunto incrédulo.

- É, mil.

- Mil. - digo, conformado.

- Mil.

Agora todas as coisas mudam. Eu posso seriamente não querer este emprego.

- Mil reais, e tem que vir de gravata?

- Isso se você achar necessário. Acho que basta.

- Quando obtenho a resposta?

- Semana que vem.

Nos cumprimentamos discretamente e fui embora.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Amnésia de japonês mata dezenas de amigos imaginários

A manhã desta segunda-feira foi marcada por uma grande catástrofe na cidade de Nagoya, Japão. Um jovem de aproximadamente dezesseis anos sofreu uma amnésia ao bater com a cabeça em um poste, e provocou a morte de dezenas de amigos imaginários. Os médicos dizem que a situação é irreversível.

Shimizu sempre andava de bicicleta nas redondezas do parque municipal de Nagoya e era, até, considerado um bom ciclista. Nesta segunda-feira, porém, nem suas habilidades foram capazes de desviar de uma cão sem proporcionar um acidente. O cachorro nada sofreu. Shimizu, no entanto, se espatifou com a cabeça em um dos dezessete postes do parque, proporcionando um forte estalo.

"Pela conversa que tive com o paciente posso dizer que os amigos imaginários estão quase todos mortos", revela a psicóloga de Shimizu, dona Nagori. "Há uma meia dúzia de feridos, mas creio que devem morrer todos nos próximos dias. Esta batida causou um amadurecimento súbito em Suzuki", completa.

Pouca gente sabia da existência de tantos amigos imaginários na cabeça deste jovem japonês. Foi seu amigo Shitaro quem primeiro informou à polícia. "Ele sempre falava desses amigos e eu nunca dei bola. Agora que eles morreram, sinto saudade", diz em tom um tanto triste, como é de se compreender. Ele diz que os amigos imaginários de Shimizu somavam a 46, cada um com uma personalidade diferente.

Os amigos imaginários não serão enterrados, visto que no Japão o acesso à terra imaginária é um tanto restrito, além de não haver cemitérios imaginários. Shimizu passa bem, e fontes seguras indicam que ele não sentirá falta dos amigos, já que se esqueceu deles peremptoriamente.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Com medo da gripe suína, José Ferreira entra no ramo de cavalos

Foi anunciada na noite de ontem uma reviravolta no que se diz respeito à suinocultura nacional. José Ferreira, que ganhou a vida financiando porcos aos brasileiros, resolveu fazer uma troca insólita. Sai do ramo dos porcos para entrar no de cavalos. Ele tem medo da gripe suína.

Ferreira, conhecido no interior como Porquinho (também porque seu nariz lembra o de um porco), deve toda sua fortuna aos porcos. Nascido na favela de Paraisópolis, nos anos 80 enxergou nos suínos uma forma eficaz de ascensão social. “Na época, quem comia porco no Brasil ou era leão ou granfino. O que eu fiz foi popularizar os suínos, e até ontem a carne de porco era mais barata que a de boi”, diz Ferreira.

As notícias da gripe suína se alastrando pelo mundo pegou Porquinho de surpresa. “Olhava para meus porcos como se fossem uns traidores. Os trato tão bem, para transmitirem gripe para mim? Assim não dá”, diz, visivelmente transtornado. Questionado com informações científicas que indicam que a carne suína não transmite o vírus, Porquinho mantém-se impassível: “Não acredito nos cientistas”.

A escolha pelo cavalos foi como um deja vu. “Escolhi criar cavalo porque quem é que come cavalo no Brasil, hoje em dia? Só granfino ou leão. Levarei o cavalo para o povo!”, propala em tom encantador, que ninguém ousa duvidar.

Os porcos de todas as fazendas de Porquinho foram queimados para dar lugar aos cavalos que devem chegar em 15 dias. Os Sem-Terra que tentaram invadir o local, atraídos pelo cheiro da carne queimada, foram afastados por seguranças armados.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Trecho de um plágio que nunca foi feito

Alguém deve ter caluniado Alfredo, pois foi detido numa manhã sem ter feito nada de mal. Era a primeira vez que lhe ocorria algo deste gênero. Sempre foi tão bonzinho, que morria de medo de ser preso por engano. Parece que o temor se realizou. Isto não é nada surpreendente, porque não é só sonho que se realiza. Não tinha mais nada a se fazer, senão esperar o advogado e dar os primeiros telefonemas. Recusou o oferecimento do policial, muito solícito, porque já viu que poderia falar mais livremente com os celulares dos outros presos. Rafael Nadal, seu cachorro, naturalmente morreu, pois um cachorro mal pode pensar em respirar sozinho, quanto mais em se alimentar. Walter Victor, o papagaio, sobreviveu um pouco mais, mas acabou morrendo quando terminou o alpiste. E a avó paralítica, coitada, também morreu. Ela tentou telefonar diversas vezes, pois estava muito preocupada com o Nadal e o Walter Victor, mas desistiu quando ouviu o toque de chamada do próprio telefonema. Alfredo não pôde levar o celular à delegacia.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

André x Fernando Pessoa - 2º round

Minhas declarações causaram rebuliço em Portugal. Fernando Pessoa jamais havia sido tão humilhado diante de um número tão grande de pessoas. Chegou até a circular um boato dando conta de que o poeta havia tentado o suicídio e conseguido - o que foi desmentido horas depois, quando foi visto chorando e comendo pastéis de Belém.

Fernando prometeu grandes declarações bombásticas que prometiam me causar muita vergonha. “Ele se sentirá como se estivesse nu em público!”, declarou Fernando, exaltado. "Fernando Pessoa promete envergonhar André de cabo a rabo", era a manchete de um dos principais jornais de Lisboa. "Fernando Pessoa chora; André ri", era a manchete de um jornal de Coimbra. "Benfica vence mais uma", a manchete de um periódico de Aveiro, mas esta não nos interessa.

A resposta tão aguardada foi esperada durante todo o dia, mas foi só nas últimas horas da noite que Fernando Pessoa apareceu sorridente em um programa de auditório - o mais visto do país. Ninguém esperava tanto contentamento depois de tanta vergonha. O apresentador chegou a insinuar loucura do grande poeta, mas não restava dúvida: A resposta estava pronta.

Conversaram primeiro sobre amenidades, como poesia e literatura portuguesa. Falaram muito sobre o tempo, se chove, se não chove. Os dois eram cúmplices de um grand finale. Aos dezenove minutos de conversa, o apresentador não se conteve e finalmente perguntou:

- Fernando, e quanto o que disse André no blog Eu não sou virgem, Maria!?

- Uma vergonha. Ele arrepender-se-á de ter dito tantas coisas ruins sobre mim.

- Por quê?

- Dar-lhe-ei a resposta agora.

Não foi sem grande susto que a plateia ouviu o que vem a seguir, depois de tantas mesóclises:

O André é um fingidor. Finge tão completamente, Que chega a fingir que é dor, A dor que deveras sente.

Ouviu-se aplausos por todo o país. Houve quem soltasse rojões. Até o minuto de silêncio foi interrompido em um grande clássico do futebol nacional. A bolsa de Coimbra subiu. O mundo aumentou imediatamente a importação de pastéis de Belém. Bruno Aleixo não ouviu, porque era tarde e já estava dormindo. Fernando Pessoa ouvia os aplausos tão merecidos, e no meio de tantas lágrimas, abraçou o apresentador e se despediu desta grande noite. Enfim o poeta se redimia.

William

Fazemos coisas terríveis em nome da seriedade. William é um bom exemplo disso. Ele se nega, se corrompe, se exclui - pela seriedade. E faria muito mais.

Veja a roupa dele. Sempre um terno escolhido por outrem, que ficaria perfeito em qualquer um. E o semblante? A mesma coisa. É um esforço contínuo para que não prestemos atenção nele. É um disfarçado profissional e proposital. Esta tentativa é tão nítida e engraçada, que o pensamento óbvio provocado é: “O que ele quer esconder com tanta seriedade?”

Nunca sei se a seriedade existe mesmo ou se o que chamamos de seriedade é somente uma negação do que nos é cômico. Nesta segunda opção, ela seria somente um anteparo entre o cômico íntimo e o olhar alheio. Um anteparo que pode ser transparente, uma peneira ou algo inexpugnável, que de vez em quando – quase nunca – se distrai, e tudo o que é engraçado e cômico de uma determinada pessoa é escancarado de repente.

William pretende, sempre, transmitir confiança e seriedade a tudo que diz. Na maioria das vezes, consegue. Porém, sua personalidade é revelada em seu erro. Ou melhor: Ele se escancara quando perde o controle da situação e sua seriedade se esvai em um segundo, como numa explosão. Seu anteparo abre uma fresta, e toda sua personalidade é extravasada em um pequeno sorriso, ou num olhar engraçado.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

André x Fernando Pessoa

É grande, a concorrência literária. Mais do que gladiadores em uma arena, os escritores se atacam, porque neste meio o fracasso de um é proporcional ao sucesso de outro. Se por um acaso Paulo Coelho passasse a vender menos livros, seu concorrente direto Machado de Assis venderia os livros perdidos por Paulo Coelho. O contrário também ocorreria.

Ultimamente meu sucesso literário tem incomodado muitos de quem já fui fã. Recebi um comunicado mal educado de Oscar Wilde, um fax bomba de Baudelaire, e um telefonema anônimo de Nietzsche. (Se o telefonema era anônimo, como eu sei que era Nietzsche? Aquela bigode não engana.) O pior ataque, porém, recebi de Fernando Pessoa. Vocês não imaginam do que um português com o ego ferido é capaz.

Pessoa tem redigido com nomes falsos, cartas aos mais variados jornais da Europa difamando meu nome e meu blog. Felizmente estes meios de comunicação não me conhecem e a repercussão não tem sido abundante. Porém, eu os conheço e fiquei profundamente magoado.

Um dos motivos que me torna superior a Fernando Pessoa – e creio que é por isso que este homem tem tanto me incomodado - é que posso provar que realmente tenho vários eus. Fernando dizia que era múltiplo, mas eram somente palavras. Cadê as fotos, com Fernando lado a lado com Fernando? Ou mais: Alberto Caiero possuía RG? Álvaro de Campos já foi visto estressado no meio do trânsito? Por um acaso o médico Ricardo Reis tinha pacientes?

Pior que isso, todos tinham a mesma caligrafia - aqui sou ainda mais superior, pois ninguém pode comprovar nas entrevistas comigo mesmo que as caligrafias são diferentes, pois são todas digitadas.

É por isso que trago uma foto que comprova a minha total multiplicidade. Era um sábado ensolarado quando me reuni comigo quatro vezes para controlar um barco em alta velocidade. Peço, pois, ao senhor Fernando Pessoa que pare com sua má e falsa literatura, ultrapassada por mim. E também que não me importune mais nos jornais europeus - pois ele não faz ideia do quanto custa importar tantos jornais.

Ps: Aos que me acusam de foto montagem, sugiro que parem de ler textos e poesias do senhor Fernando Pessoa.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Nossas tias

Não é a bomba atômica, o grande mal da humanidade. Nem as abelhas - mas disso, você já sabia. O grande mal da humanidade é o bom senso.

Quando nossas tias discutem conosco, parece que há sempre uma contagem regressiva até que elas peçam que utilizemos o bom senso. "Use o bom senso, meu sobrinho, que não terá mais dúvidas", é o que elas dizem - ou quando não dizem, pensam. Ou seja. Enquanto nossas tias nos oferecem grato amor, elas estão na verdade correndo atrás do grande mal da humanidade!

Isto ocorre sempre quando elas dizem: "Diz com quem andas que te direi quem és". Esta frase, típica do bom senso, é de uma mentira singular.

Como é possível descobrir quem a pessoa é sabendo somente com quem ela anda? Apenas uma pequena parte da população mundial – as ricas e as famosas - tem os amigos de acordo com a própria personalidade. Estas pessoas são as especiais, que têm a possibilidade de escolher os amigos. Elas, sim, têm nos amigos uma indicação do que são.

Mas ao resto da humanidade, restam os amigos que a vida, ou o acaso, oferece. Estas pessoas não escolhem os amigos, senão os toleram.

Se você disser que anda com Sidney Magal, Robson Martins e Péricles Chamusca, tudo o que posso dizer é que você anda com Sidney Magal, Robson Martins e Péricles Chamusca.

O certo, então, seria: "Diga com quem anda que te direi quem são"!

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Trecho de um livro gay que nunca foi escrito

"Quando comprei a primeira revista G, não esperava que fosse comprar a segunda, a terceira e todas as outras seguintes. E quando comprei a última, tinha plena certeza de que seria a última, e que precisaria jogar todas fora.

Alguém acreditaria se eu dissesse que não sou homossexual? Eu não sou homossexual. Comprar a revista G, não quer dizer se excitar com ela. Tenho um apreço pela estética masculina que não tenho pela feminina. É isso: Apreço é uma coisa, atração sexual é outra.

Não se foram só as revistas. A cama de solteiro, o raque tridimensional das Casas Bahia, a tevê, aqueles talheres bregas, os quadros de infância, os portas-retratos com fotos de gente que nem conheço, o sofá da sala e o fogão.

O fogão foi por engano."

segunda-feira, 30 de março de 2009

José

José descobriria a cura do câncer; falaria a cura da AIDS, sem pestanejar. Dissertaria sobre as razões para a impossibilidade da paz mundial no estado atual e as soluções; daria a receita para o fim da fome na África e no resto do mundo como quem recita um nega maluca. Comporia sonetos mais belos que de Camões e mais profundos que de Shakespeare; desenvolveria toda uma filosofia mais profunda que de Kant e mais charmosos que de Nietzsche. Resolveria o problema da violência das grandes metrópoles; dissolveria as grandes brigas por terra no campo. Criaria mulheres que já nasceriam sem pêlos nas axilas; inventaria cirurgias plásticas indolores.

José, porém, é mudo. Como se não bastasse, não tem braços e não pode escrever. E todas essas coisas, infelizmente, não serão possíveis.