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sexta-feira, 19 de junho de 2009

Encontro com os Beatles

O leitor deste blog deve estar se sentindo nos anos 60. Desde aquela década que não há uma overdose de Beatles como tem acontecido aqui nesta semana. Tudo bem que uma overdose de Beatles não é uma overdose qualquer. Mas graças a mim é a última entrevista com eles nesta semana, porém a mais especial. É a primeira vez que eles se reunirão desde aquele show no teto da gravadora no século passado.

Como era esperado, o trabalho de logística para reunir tanta gente importante foi imenso. Vôos fretados da Inglaterra para o Brasil e do Brasil para a Inglaterra não foram raros! E a parte do céu que cuida da burocracia de casos de ressurreição temporária há dois mil anos não tinha tanto trabalho.

Nada melhor do que o Preto and Branco Park para se sentirem todos à vontade. Os donos do local fecharam o Park para todos nós e capricharam no efeito de luz ultravioleta que retira as cores do ambiente. Como vocês podem ver nas fotos que vêm daqui a pouco, parece que estamos realmente em tons de cinza, como antigamente.

Marcamos para o horário da tarde, que seria melhor para todos e principalmente para mim, porque não gosto de acordar cedo nem de dormir à tarde.

Contrariando as expectativas de que quem é vivo sempre aparece, justamente George e John foram os primeiros a chegar.

- Quem te viu, quem te vê, hein rapaz? - se apressou em dizer George.

- Pois é! - disse John.

Os dois se olhavam esquisito e se estranhavam. Sem dar conta de minha presença, conversaram por minutos a fio sobre os segredos do submundo. George falou da saudade de fazer cocô, e John lamentou a saudade de Coca-Cola. Ou será que foi o contrário? O assunto terminou quando John comentou sobre um desodorante do submundo. George percebeu que era com ele e trocou logo de assunto.

De novo, como George Harrison fede. É absolutamente incrível o fedor deste defunto.

Paul e Ringo chegaram mais tarde. Ringo cumprimentou a todos, sempre muito sorridente. Paul fez que não viu o John, mas John fez questão de cumprimentá-lo. Eles ficaram cerca de três minutos balançando as mãos dadas, se encarando esquisito, até que ao final sorriram, sorriram e sorriram.

Enfim, o clima parecia perfeito para uma entrevista. Para não repetir o erro de ontem, quando interagi com Paul mas não registrei tudo devidamente, tomei logo o cuidado de tirarmos uma foto com antecedência. (A foto com ele é, infelizmente, uma montagem)

Não houve briga para quem quisesse ficar no centro. O desentendimento aconteceu para discutir quem ficaria ao meu lado da foto. George argumentou que sempre foi o mais injustiçado da banda, então deveria ficar ao meu lado direito. Ringo disse que se George ficaria ao meu lado direito, ele certamente era merecedor do meu lado esquerdo. Paul se antecipou em dizer que era meu Beatle preferido, então deveria ao menos sair na foto.

John só ficou olhando.

Para sair todo mundo, colocarmos a máquina no automático, mas não deu muito certo.


Então sobrou para John, o único sem argumento, para tirar a fotografia. Ficou ótima.


- Pronto – eu disse – agora podemos ir embora.

Os quatro me olharam com bastante espanto. Pareciam estar gostando daquele momento, e eu queria encerrar tão logo?

- Vocês podem ficar aí. Eu só queria a foto.

Fui embora muito contente. Afinal, não é todo mundo que tem uma foto com os Beatles tirada pelo John Lennon.

Entrevista com Sãr Paul Mccartney

Hoje é dia de Paul Mccartney. E quase que ela não sai.

Leitor de blog é muito ingênuo. Se ele doasse milhares de reais ao invés de postar milhões de comentários, os posts sairiam com frequência muito maior! Ao invés de entrevistar os Beatles uma vez por ano, poderia entrevistá-los uma vez por semana, se o doador assim quisesse.

- E os Rolling Stones? Eu prefiro os Rolling Stones, ao invés dos Beatles.

Os Rolling Stones, também. Embora isso não tenha nenhum impacto, porque hoje qualquer um entrevista o Mick Jagger e aquele bêbado cujo nome é Keith Richards, a entrevista poderia acontecer. A partir do momento em que entra capital, eu não preciso mais fazer somente coisas de que eu goste. Mas esta é uma entrevista com Paul Mccartney, o sãr.

Posso confessar que esta é a primeira vez que fico nervoso antes de uma entrevista. Nem quando entrevistei Ayrton Senna depois de morto fiquei tão nervoso assim. Talvez seja porque eu tenha compaixão com pessoas de cabeça grande. E talvez seja também porque o Senna é um tédio. Mas você, leitor, deve notar que a surpresa maior não é meu nervosismo diante de Paul; o que estranha é eu admitir que fiquei nervoso.

Passo horas e dias tentando mostrar-me superior diante de tudo, e agora quase ponho tudo a perder. Isso é estranho?

Analisando o fato sem o seu contexto, sim. Aliás, se alguém leu este texto até o parágrafo anterior, pensará para sempre que a empáfia era de mentirinha. Mas diante de alguém que tem todos os motivos para a soberba - sucesso gigantesco, sendo que ele é justamente proporcional ao talento - e é extremamente carismático e simpático, minha altivez cai por terra!

Então, se você não conhece pessoalmente Paul, saiba que ele é, antes de tudo, um simpático. Chega até a ser bobo, de tão agradável e aprazível. Como se as bilhões de pessoas que gostam dele não bastassem, ele faz de tudo para agradar o interlocutor e conquistar mais um fã. Aliás, para conquistar o fã, ele é capaz de tratar a pessoa como ídolo. Compreende?

Para se ter uma idéia, no ato de contatá-lo para a entrevista, foi ele quem falou que poderia entrevistá-lo antes mesmo de eu dizer. Cacilda. E ele ainda disse que viria à minha casa, se precisasse.

- Precisa, sim! Venha amanhã às quatro e vinte da tarde, por favor! Abraço, outro. Tchau!

Paul apareceu muito bem vestido na hora exata. O rosto dele é realmente muito simpático. Este moço está sempre rindo!

- André! Trouxe-lhe vinhos!

Contei que não gosto de vinhos.

- Mas eu trouxe Coca, também! Você gosta de Coca?

É claro que sim. Dei-lhe logo um abraço para deixar de ser bobo.

- Quer uma massagem? Quer, né? É claro que quer.

Paul me fez massagem e fiquei mais relaxado – embora ele não tenha técnica muito apurada. Enquanto apertava minhas costas, cantarolou músicas como Hey Jude, My Michelle e Ana Júlia.

- Epa! Por que todo Beatle canta Ana Júlia?

Ele parou um pouquinho a massagem, para depois dizer:

- Foi o George que me ensinou uma vez. Nunca mais me esqueci. O John também cantarola Ana Júlia?

- Não reparei.

A massagem continuou até o momento em que minhas costas começaram a arder.

- Trouxe uns bifes, para fazer à milanesa para você! Quer? – disse Paul.

É claro que eu queria. Claro que sim.

- Então deita um pouco aí, relaxa, que eu já trago tudo prontinho.

Eu estava quase cochilando, quando Paul perguntou, constrangido:

- Onde tem farinha de rosca?

Falei que era na terceira gaveta do armário, e ele bateu as mãos na testa. Parecia que este era o único lugar que ele não procurou.

Bifinho pronto, ele trouxe numa bandeja três bifes e um copo de Coca muito gelada. Me acordou de mancinho, para não atrapalhar meu cochilo.

- André? Acorda, meu chapa. Acorda, que depois o bife esfria e a Coca esquenta e perde o gás.

Acordei, comi os bifes, tomei a Coca, e ele foi embora com a missão cumprida.

Rapaz! E a entrevista?? Quando percebi, Sãr Paul Mccartney já tinha dobrado a esquina.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Entrevista com George Harrison


No dia de hoje acordei com a imensa alegria de um dia de folga. "Ufa!", pensei, "Ainda bem que hoje não terei que entrevistar nenhum Beatle!". Espreguicei-me com todas as forças, tomei meu achocolatado com calma, e li, tim tim por tim tim, todas as notícias do Palmeiras, o time de meu coração. A campainha tocou.

Imóvel, comecei a maldizer o mundo. "Por que alguém vem me procurar num dia de folga?!", pensei. "Por quê, meu Deus? Por quê?"! O sujeito tocou novamente, mas dessa vez disse:

- André, eu sei que você está aí tomando seu café da manhã!

Era uma voz conhecida. Uma voz que já tinha atingido meus ouvidos em alguns discos dos anos 60. Uma voz inglesa, uma voz defunta! Cacilda, era George Harrison vindo me visitar!

Não havia outra coisa a fazer, senão abrir a porta. Havia me esquecido que hoje era dia de entrevistar o Harrison. Já não gosto de entrevistar pessoas importantes. Entrevistar defuntos importantes é coisa pior ainda! Se eu não fizer alguma pergunta importante, sei que milhões de beatlemaníacos reclamarão. Se eu for um pouco rude, outros também farão comentários mal humorados neste espaço.

- Olá, André!

- Olá, George! Desculpe. Acho que esqueci a geladeira aberta. E deve ter alguma panela de feijão aberta há mais de sete dias. Meu Deus, que cheiro horrível!

O cheiro era de George.

Depois de alguns anos apodrecendo em um caixão, algumas pessoas vão adquirindo um cheiro não muito agradável. Desculpe a insistência, mas lembra muito feijão esquecido na geladeira.

Parece que ele não estava com muita vontade de dar entrevistas:

- Como é que é? Não se respeita mais os mortos? Além de lidar com vermes, agora temos que nos relacionar com repórteres?

- Eu não o obriguei a dar entrevista. Aliás, nem tinha muita vontade de entrevistá-lo. Estou ansioso é para entrevistar Paul. Ele é muito cabeçudo.

- Se não foi você, então quem foi?

- Deve ter sido Deus. Dizem que ele ficou com muita vontade de ver como você se sairia depois de ver a do John Lennon. Ele adorou a do John!

- Hum... Compreendo.

Ele olhou a minha geladeira e deu outro sorriso. Foi até ela e a abriu prontamente.

- Coca-Cola! Eu quero, eu quero!

- Pode pegar.

Ele tomou os dois litros direto da garrafa, numa golada única. Antes que fosse possível arrotar, olhou-me pedindo outra.

- Só tem quente.

- Pode ser, pode ser!

Fui buscar na área de serviços e, pombas, não tinha!

- George, não tem!

Ele me olhou bravo, raivoso, puto como um super star que não teve seu desejo atendido.

- Mas eu posso lhe fazer uma limonada suíça divina! Quer?

- Não! Eu quero Coca! Não quero suco. Coca! É Coca que eu quero.

- Coca não tem. E você ainda tem que dar a entrevista.

O tédio era evidente. Não se sabe como o encontro de uma pessoa tão genial como eu com uma pessoa tão famosa e criativa como George poderia cair nesse tédio todo. Ele começou a cantarolar Ana Julia.

- O que é aquele martelo com aquele prego ali?

- Sei lá. Deixei ali sem querer.

Enquanto eu estava sentado, ele não teve dúvida. Martelou os pregos na minha cabeça.

Com uma imensa dor de cabeça, levantei bruscamente, e ele quase furou meu olho com um dos pregos!

- Vamos logo à entrevista, que você está me irritando!

- Ok, ok.

Eu: Como é morrer depois de ter feito tanto sucesso?

George Harrison: Morrer não tem segredo. É como dormir, só que pra sempre. Aliás, é como dormir com mosquitos pela noite inteira. Só que no lugar dos mosquitos, tem vermes.

Eu: Se você pudesse escolher entre morrer e estar vivo, o que preferiria?

George Harrison: Estar vivo, com certeza. Na vida, tem Coca-Cola. Aliás, está me dando uma vontade absurda de fazer cocô.

George correu para o banheiro sem que eu lhe dissesse onde ficava. Engraçado, que a necessidade fecal nos porta de uma bússola instintiva - em que o norte é o banheiro. Fiquei ao lado da porta, primeiro para saber como é que um Beatle defecava. Depois, para saber como um morto fazia cocô!

Posso dizer que o cheiro é o mesmo. Se não o mesmo, um pouco mais adocicado. A cada pum que ele soltava, o cheiro melhorava. Parece que os mortos realmente tôm dentro a melhor parte.

Ele não deu descarga e saiu sem lavar as mãos, o que me pegou inteiramente de surpresa. Fiquei um pouco preocupado ao pensar se ele usou ou não papel higiênico.

Sei que isso não pode ser de seu interesse. Sei que o que um Beatle pensa é importante porque isso só ocorre com um beatle, e que cocô dele não é importante porque todo mundo faz. Se não quiser saber mais sobre o tema, faça o favor de pular algumas linhas.

Acontece que olhei a privada algumas horas depois e não havia nada lá, a não ser uma marca de cocô no fundo da privada, que pode ter sido provocada por qualquer outra pessoa. Eu não a fiz, porque isso nunca me aconteceu, mas eu não moro sozinho, e não posso responder pelas outras pessoas da minha casa.

Eu: Como é fazer cocô depois de tantos anos?

George Harrison: É tão bom quanto tomar Coca depois de tantos anos, como arrotar, soltar pum e suar depois de tantos anos. Me diga com sinceridade. Eu estou fedendo?

Eu: Está, sim.

George Harrison: Era exatamente o que eu desconfiava. Você se importaria se eu fosse embora agora?

Eu: Nem um pouco. Sexta-feira a gente se vê no encontro com os outros Beatles.

George Harrison: Ok. Até lá!

terça-feira, 16 de junho de 2009

Entrevista com Ringo Starr


Foi difícil acordar cedo nesta terça-feira para entrevistar o grande baterista Ringo Starr. Não que ele não seja um grande sujeito. Muito menos que não tenha um papo agradável. Acontece que fui dormir tarde ontem, e quando marcamos nosso encontro, o inglês foi bem claro:

- Encontre-me às oito. Ouviu? Oito. Eu não disse sete, nem nove. Eu disse oito. Espero que tenha ouvido corretamente.

Ele não precisava ter sido tão enfático para que eu chegasse no horário. Para quem não sabe, sou uma pessoa muito pontual. Há quem pense que a pontualidade é uma grande demonstração de respeito. E até é, um pouco. Mas, para mim, pontualidade significa a hora mínima para que o encontro termine o mais rápido possível. Assim. Se eu chegasse à entrevista com o Ringo às oito e quinze, por exemplo, eu me livraria dele quinze minutos mais tarde. Então fui pontual para que a entrevista terminasse mais cedo do que se não o fosse.

Cheguei à casa dele às sete e cinquenta e oito, porque pontualidade exige planejamento e antecedência. É impossível ser sempre pontual se baseando no horário da chegada. É preciso ter sempre como meta chegar ao local desejado uns quinze, vinte minutos antes. Porque possivelmente haverá alguma coisa que o atrase quinze, vinte minutos. Isso falha quando há um grande problema que o atrase por muito tempo. Aí não há remédio possível.

Dim, dom.

- Who is it?

- Em português, please.

- Quem é?

- Sou eu, Ringo. O André, do blog Eu não sou virgem, Maria!.

- Ó! Pode entrar, rapaz. Vem entrando, por favor!

Ringo abriu-me o portão, e fui caminhando pelo longo jardim de sua residência muito rica. Depois de passar por sete árvores, dezessete bromélias, quatro poodles, seis pastores alemães, sete empregados, quatro faxineiras e dois urubus, encontro com o sorridente Beatle segurando a porta aberta para mim.

- Olá, grande amigo! - me diz ele.

- Olá, meu chapa! Olá!

Cumprimentamos-nos efusivamente. O abraço demorou mais do que seria agradável, e a barba dele arranhou minha bochecha. Vi que uma garrafa de dois litros de Coca-Cola me esperava, gelada.

- Ringo. Com grande pesar, sou obrigado a recusar esta Coca-Cola. Não suporto refrigerante antes do meio-dia.

Ele levantou os ombros, como se não se importasse.

- Vamos às perguntas?

- Sim, sim. - disse Ringo em sua humildade avassaladora.

Outro dia alguém me perguntou o que seria dos Beatles, se Ringo e George Harrison também fossem gênios. Eu não respondi nada, mas se me refizessem a pergunta no dia de hoje, eu diria que os Beatles seriam um grande fracasso. Numa grande banda, é preciso que a genialidade seja bem centralizada, e haja gente que faça coisas bem simples, para não atrapalhar. Ringo e George não atrapalham divinamente.

Eu: Tudo bem, amigo?

Ringo Starr: Tudo.

Eu: De onde vem seu apelido?

Ringo Starr: Não sei se você sabe, mas meu nome é Richard. Mas sempre usei muitos anéis. Então me apelidaram Ringo, porque em inglês, anel é ring.

Eu: Entendo. Tem alguma coisa que você gostaria de dizer?

Ringo Starr: Acho que não.

Eu: O que é isso ali em cima?

Ringo Starr: Um grammy. Quer?

Eu: Você está falando sério?

Ringo Starr: Claro, pode pegar. É teu.

Eu: Então podemos encerrar a entrevista. O que você acha?

Ringo Starr: Eu simplesmente adoraria.

Foi assim que a entrevista de hoje terminou. Ringo ficou aliviado por não ter que falar muito, e eu fiquei descansado por não precisar entrevistar muito. Terça-feira é para profissionais.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Entrevista com John Lennon


John Lennon recebeu me de braços abertos: ele espreguiçava. Finalmente, depois de tantos anos, ele podia andar tranquilamente pelas ruas de Liverpool. Muitas pessoas olhavam esquisito ao nosso rock star, mas tinham a certeza de que era um sósia. Um sósia perfeito, mas um sósia. Se eu fosse um pouco maldoso, diria que ele sentia um pouco de falta do reconhecimento do público, mas talvez isto não seja preciso. Aquilo denotava mais estranhamento do que falta.

- Como vai, meu amigo John? - pergunto por trás.

Ele se assustou gravemente e me olhou assustado por uns dois, três segundos. É difícil de se habituar com a vida na Terra. Depois desses segundos, deu-me um abraço ainda sem denotar nenhuma expressão. Demos tapas fortes nas costas, e ele me disse o seguinte:

- Rapaz, lendo seu blog, eu pensei que você não existisse!

Ao que eu respondo:

- E eu, que pensei que você estivesse morto?

John:

- Morto eu estou, mas não é por isso que vou deixar de viver. A vida parece ser o contrário da morte, mas não é. Vida é uma coisa, morte é outra. Viu esse filme do Godard?

É claro que não vamos falar de cinema. Quanto mais de Godard. Se eu quisesse falar de Godard, entrevistaria o próprio. Tanta coisa para falar com o defunto, e vou desperdiçar o tempo falando sobre um cineasta francês?! John interrompeu este meu pensamento:

- Veja só como são as coisas. Faz mais de vinte anos que não vejo minha esposa Yoko, e faz cinco minutos que não fico pelado. E não é que a saudade que eu sinto por estas coisas é a mesma?

- Então você quer ficar pelado?

- Quero, sim. De preferência, com a Yoko.

Fomos a pé até a casa onde Yoko mora. John se mostrava incrivelmente desconfortável com aquelas roupas. Tudo bem que quando a gente morre, não veste mais nada. Mas tem tanta coisa para se preocupar com a vida na Terra, e o que lhe afligia eram as roupas.

Tocamos a campainha.

- Quem é? - diz Yoko, olhando pelo olho mágico horizontal, especialmente planejado para pessoas orientais.

- Sou eu, meu amor! - John.

Ouve-se baixinho, porque a porta abafa:

- Puta que pariu. Mais um sósia.

E ela abre a porta, com disposição somente para tirar uma fotografia.

John vai até ela, a abraça, e parece que Yoko se sentiu realmente comovida, mas nunca convencida. John fechou a porta com força e foi logo tirando a roupa.

Você tinha que ver a reação de Yoko. Ela abriu a boca estupefata. Um jornalista diria que ficou impressionada pelo tamanho do pênis de John, que é realmente grande. Mas o que a impressionou foi a incrível semelhança com o original.

- É igualzinho! Idêntico! Os sósias estão ficando cada vez mais parecidos.

Pensando depois nesta história toda, o que me vem à cabeça é a dúvida: Por que John não disse que era de fato ele mesmo? Por que ele não disse: "Sou eu, meu amor! Sou eu!"?

Vamos à entrevista, que eu acho que é o que interessa.

Note que John respondeu a todas as perguntas sem uma vestimenta sequer, e isso me causou um certo constrangimento em algumas perguntas.

Eu: John, conte um pouco de sua vida extra-terrestre.

John Lennon: A vida extra-terrestre é muito boa. Eu, se fosse um governante atual, investiria uma quantia considerável na busca de povos de outros planetas. Há muita coisa gostosa fora daqui. Há de se considerar que sou um privilegiado. Todas as portas me estão abertas. Eu posso entrar no céu de Jesus, porque tive muitos fãs católicos que rezaram por mim. Tenho também passe livre no Paraíso de Alá - parece que os shakes adoravam minhas canções. Então é aquela coisa, eu te dou a visão positiva da vida extra-terrestre, que, para mim, é inegavelmente boa.

Eu: Melhor que a terrestre?

John Lennon: Não sei se melhor ou pior. É diferente. Tem várias coisas que têm na Terra e não têm lá, e que fazem falta. Por exemplo, lá a gente não faz cocô. Me diga você: Tem alguma coisa melhor do que fazer cocô? Eu tenho as setenta e duas virgens, conheço os anjos, essa coisa toda. Mas às vezes dá vontade de fazer cocô e ele não vem, porque não tem cocô fora da Terra.

Eu: Do que mais você sente falta daqui da Terra?

John Lennon: Coca-Cola, chocolate, show lotado, futebol, andar de avião, fazer sexo pelado, ser reconhecido por milhões de fãs, ver TV, comer cachorro quente, piada de mau gosto...

Eu: Entendo. Por que você não dá entrevista desde o ano de 1980?

John Lennon: Não dou entrevista porque ninguém me procurou. Todo mundo lamenta, quer saber qual seria a minha opinião sobre algumas coisas. E é só pedir! Como você fez. Pedir para Deus, que ele é o único que pode me liberar. As coisas são muito injustas. Eu vivi quarenta anos e vou existir por toda a eternidade. Mas só o que eu fiz e falei nesses quarenta anos é que as pessoas vão saber. O resto, parece que não existe!

Eu: Vamos falar um pouco de música. Você tem composto ultimamente?

John Lennon: Tenho, sim. Antes de vir para cá, por exemplo, tentei gravar o hino do seu blog. Mas as rimas são muito difíceis e me foi impossível. Você tem certeza de que a pessoa que o compôs pensou na musicalidade da coisa?

Eu: Não pensei, não. E eu não pedi para você gravar. Está certo que seria incrível se você gravasse. Mas não gravou. Fora isso, não tem composto mais nada?

John Lennon: Tenho, sim. Mas lá não tem violão e gravador. Então fica aquela coisa na cabeça. Tudo o que eu componho dura o tempo da memória. Ou o tempo da inspiração. São coisas muito curtas.

Eu: Diga um livro que mudou a sua vida.

John Lennon: O apanhador no campo de centeio.

Eu: Um homem que mudou a sua vida.

John Lennon: Mark David Shapman.

John olhou para o relógio e percebeu que só tinha mais cinco minutos aqui na Terra.

- Tenho que ir, meu chapa.

Posamos para a foto. Acho que ficou para a história.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Obina na minha casa

Qual não foi minha enorme surpresa, quando na tarde de segunda-feira, enquanto via a edição da noite do SPTV, me deparei com a seguinte notícia, na voz de Carlos Tramontina:

- O Palmeiras acaba de anunciar a contratação de Obina, do Flamengo!

Antes de minha risada cessar, eis que toca minha campainha. Espio pelo olho mágico e vejo o homem noticiado há pouco. Mantendo o estado pasmo da notícia recém chegada, respiro para abrir a porta a este grande amigo.

- Ora, ora! Se não é meu grande amigo, que agora joga pelo meu time?!

Obina olha para o chão um pouco constrangido. E diz, com o canto esquerdo da boca:

- Eu vim para cá o quanto antes. Queria ser o primeiro a lhe dar a notícia! Pelo jeito me atrasei, né?

Ele se entristeceu um pouco quando lhe contei que o Tramontina já havia dado a boa nova um minuto antes. Mas logo se esqueceu quando lhe disse que hoje mesmo havia comprado na feira dois acarajés.

- Comprei um para mim e outro para você. Pena que comi os dois no almoço!

De novo Obina se entristece.

- Desculpe, Obina. Não sabia que você vinha.

- Então por que comprou um acarajé para mim?

- Eu comprei um para você. E como não sabia que você vinha, comi para não estragar. Se você tivesse me contado antes, compraria três. Assim sobraria um para você, meu grande amigo.

Ele não entendeu nada e coçou a orelha. Dei-lhe logo um grande abraço com cócegas, para que se esquecesse dos acarajés. Senti logo que ele estava um pouco acima do peso. Mas, ao contrário do que recomendaria a qualquer outro jogador de futebol, ele não precisa de regime. Obina é um jogador que nunca jogou com o físico ideal. Para ele magreza até atrapalharia, pois já se acostumou a jogar com quilos a mais.

- Como é que é? Fica no Palmeiras até o final do ano, meu chapa?

- Fico, sim. E se Deus quiser, renovamos o contrato. Eu não sou melhor que o Eto´o, mas o Palmeiras é muito melhor que o Flamengo.

- Rapaz, você não tem mais que se preocupar em ser melhor que o Eto´o. Você tem que ser melhor que o Keirrison!

Obina olhou como se não entendesse. Percebi que não conhece Keirrison, o atacante titular do Palmeiras.

- Eu não vou jogar na NBA, não - disse Obina - Quem é esse Keirrison? Pelo nome, é jogador de basquete.

- Nada, não. Qualquer dia você o encontra por aí.

O celular de Obina toca, ele faz que sim com a cabeça umas três vezes e desliga.

- Tenho que ir embora. Hoje é dia de concentração.

- Tudo bem, meu grande amigo Obina. Vá lá!

Demos abraços efusivos e nos despedimos.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Einstein cumpre sua promessa

Atendi o telefone e uma voz cansada com o tempo me disse:

- André. Me dê o sinal de fax. Sim?

Desliguei sem prestar muita atenção e apertei o START do fax. Uma folha começou a ser impressa, e percebi que tinha grande importância. Ei-la:



Abaixo, havia o recado: "Não falei que daria Palmeiras? Pintei meu cabelo de verde conforme prometido. Abraço. A. Einstein"

Grande gênio. Verifiquei mais tarde que meu fax não imprime fotos coloridas. Mas isto é uma explicação que só Einstein nos poderia fornecer.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Einstein trombadinha



A série de entrevistas com lideranças mundiais está sendo uma grande sucesso. Percebi que o leitor gosta que eu tenha boas companhias, e que isso pode acrescentar bastante ao debate. Houve muitos questionamentos quando souberam que Obina entraria para a lista, mas cessaram todos após a entrevista, quando puderam perceber a capacidade intelectual deste homem e artilheiro.

Hoje, entrevistarei um gênio. Mas um gênio, gênio mesmo. É assustador ouvir a minha geração utilizando esta palavra. Usam gênio se referindo a um sujeito bom, a uma coisa legal, engraçada ou divertida. Ou seja, hoje em dia genial é fazer uma coisa muito boa. Só que genial é muito mais que isso. Genial é fazer o que ninguém fez, nem poderia imaginar. Genial é fazer mais do que se pensava que um ser humano poderia fazer.

Quando você for chamar alguém de gênio, tente comparar esta pessoa com gênios de outras épocas. Pense: Este sujeito inventou o pára-quedas? Inventou o avião? Intuiu a criação dos planetas? Descobriu que a Terra não é redonda?

Se sim, para pelo menos uma destas perguntas ou similares, a pessoas pode, sim, ser considerada genial. Caso contrário, ela só será muito legal - e olhe que isso já é uma grande coisa, pois a grande maioria das pessoas é composta de chatos irremediáveis!

Mas eu falava do convidado de hoje. Ele é inquestionavelmente um gênio, é alemão e parece meio louco. É o tipo de sujeito referência, que simboliza o ápice da inteligência humana. Não é Obina, não é Obama, muito menos sou eu. Trata-se, é claro, de Albert Einstein.

- Einstein. Olá!

- Olá, meu chapa. Tudo em cima?

Einstein me recebeu em sua casa no século XX. Nós nos encontramos no começo deste ano, aqui no século XXI, numa visita que ele concedeu a meu blog. A conversa foi a seguinte:

- Olá, André! Permita-me apresentar. Meu nome é Albert Einstein, e sou um cientista que viveu há muito tempo. Passei anos pegando elevadores rápidos para avançar no tempo, poder encontrá-lo e ler seu blog. É um grande prazer conhecê-lo.

Caramba, eu pensei, o Einstein veio até aqui só para me conhecer!

- Oi, Einstein! Eu já ouvi falar de você. Vamos conversar. Você veio de muito longe. Deve estar com sede!

- Estou, sim! Muita sede. Você teria uma água tônica?

Deveria desconfiar. Bebida de velho.

- Ter, não tenho. Mas vamos até ali comprar uma bem geladinha.

Sentamo-nos no bar e conversamos, conversamos. O bom de conversar com uma pessoa inteligente e interessante é que ela faz aflorar o lado inteligente e interessante dos outros. Comigo não foi nada diferente. Falei sobre física, opinei sobre bioquímica, e até critiquei descobertas dele mesmo, Einstein.

- Entendo que você critique a bomba atômica, por exemplo. Mas eu só queria inventar o microondas! Aliás, como se escreve microondas na nova ortografia?

- Não sei, Einstein, não sei!

Achei esquisito que ele soubesse deste detalhe da língua portuguesa, já que teimava em falar em alemão. Eu, que não sei alemão, apenas intuí as palavras que ele disse. E vou dizer uma coisa. É muito difícil intuir o alemão, já que todas palavras parecem ter conotações nazistas.

Depois de muito papo, vi que ele tinha uma anotação esquisita: E=mc. Achei que aquilo não batia e opinei:

- Einstein. É ao quadrado. E, igual a MC ao quadrado.

Ele fez uma cara de espanto, fez rápidas contas no guardanapo e me olhou assustado:

- Você vai contar para alguém que foi você quem disse?

- Não, Albert. Fica tranquilo. Só tenta falar do meu blog para seus alunos, não sei.

- Falo. Falo, sim.

Neste momento ele alegou uma desculpa qualquer e disse que tinha que ir embora. Comprou várias águas tônicas geladas, e entrou no elevador. Agora teria que andar numa velocidade menor, para voltar ao tempo. Eu disse que tudo bem, e fui embora.

Desde então, me dediquei a fundo ao alemão. Eis uma língua muito chata. Parece que as palavras não fazem sentido ligando umas às outras, além de parecer que são somente ruídos e, como já disse, nazistas. Mas Einstein não era nazista, e para um melhor papo, era necessário aprender a língua maldita.

Foi hoje de manhã que ele veio, no mesmo elevador. Percebi que ele estava virado de costas, ajeitando o cabelo com o auxílio do espelho.

- Ué! Pensei que você fosse despenteado!

- E sou! É que dá muito trabalho despentear o cabelo.

- Perguntei mal. Eu pensei é que você fosse despenteado por desleixo!

- Bah! Imagine! Eu não sou um homem a frente do tempo? Então. Eu me antecipei à moda do século XX e tenho o cabelo como se tem hoje: comprido e despenteado.

- Caramba! Você é mesmo um gênio.

- Rapaz, mais sessenta anos pegando elevador rápido só para falar com você, então vamos falar de coisas mais importantes. Aliás, prefiro que seja lá em casa. Vamos entrar neste elevador para voltar ao tempo.

Posso dizer que voltar ao tempo é muito mais entediante do que parece. Imagine entrar em um elevador e esperar 60 anos para encontrar uma cidade antiga e sem graça? E depois mais 60 para voltar, porque o velho que estava contigo se esqueceu de comprar a água tônica. Faço grandes coisas por uma grande entrevista.

Chegando na casa de Einstein é que começamos a entrevista.

- Agora eu aprendi a falar alemão! – eu disse.

- Por que você não disse antes? Eu já sabia falar português! Só falei em alemão porque achei que você estivesse compreendendo.

Puta que pariu.

- Tudo bem. Vamos falar em português, mesmo. E aí, como vão as descobertas?

- Vão bem. Olha, você estava certo. É E=mc². Acho que minha maior invenção é sua!

- Não se preocupe. Prefiro que seja sua. Você é um homem tão bom.

- Obrigado. Mas eu cumpri a minha parte do trato. Escrevi na lousa que seu blog é o melhor do mundo. Pedi para um aluno tirar a foto no celular aqui.



- Mas esse celular é meu! Eu o perdi bem naquele dia em que nos encontramos!

- Você não perdeu. Eu peguei para que tirar essa foto. Ficou boa, não?

- Ficou, sim, seu trombadinha. Agora posso começar a gravar? Pensei em entrevistá-lo para a série de entrevistas com lideranças mundiais.

- Claro! Eu estava louco para entrar nessa lista. Agora resolveu escutar os mortos?

- É bom ouvir quem não pode mais dizer, não é? Você é morto, mas é muito inteligente. Creio que é melhor entrevistar você morto do que a Xuxa viva, por exemplo.

- Concordo, embora não conheça essa Xuxa. Porém posso presumir que ela não seja tão inteligente nem tenha coisas tão relevantes para dizer como eu tenho.

- É mesmo. Começa me dizendo uma frase de efeito.

- Se for para destruir, não destrua uma casa, um prédio, ou um bairro. Destrua logo uma cidade inteira!

- Opa! Assim começo a pensar que você quis criar a bomba atômica de propósito!

- Acho que você não ouviu direito. Eu disse se for para construir. Construir, não destruir.

- Sei... como você sabe que eu ouvi destruir, então?

- Pela cara que você fez na hora em que eu disse construir. Intui que você tivesse ouvido o contrário.

- Olha. Não tenho muito mais tempo. Me diz, por favor, quem ganha hoje. Palmeiras ou Sport?

- Palmeiras. E depois do jogo eu ainda pinto o cabelo de verde!

- Tá bom. Você vai de elevador?

- Vou, sim. Só vou comprar umas águas tônicas antes.

Demos abraços fortes e efusivos e nos despedimos.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Entrevistas com lideranças - Obama, Obina e sósias

Quando comecei a seção de entrevistas com lideranças mundiais, realmente pretendia colocar em prática o motivo da criação deste blog: Resolver os problemas do mundo. Acontece que, como ocorre com as coisas muito bem feitas, muita gente não acreditou. E pior: achou graça.

As entrevistas todas perderiam toda a graça se pensássemos nas quarenta e seis crianças da Etiópia cujo peso somado chega somente aos setenta e seis quilos e podem entrar todas juntas em um elevador; ou então no sujeito que empalou um etíope e não conseguiu fazer um espetinho; ou no outro etíope que não tinha cu, mas não explodiu porque não comia o suficiente para produzir gases e soltar pum.

Não é intenção deste blog fazer graça. A intenção do blog é, repito, resolver todos os problemas do mundo. Primeiro todos depositaram as esperanças em Lula. Ele melhora o Brasil, mas o Brasil é parte muito pequena do mundo. Então pensaram em Obama, e já é notório que ele não resolverá o problema do mundo. E foi neste momento que todos olharam para mim. Eu, no alto de minha timidez crônica, respondo somente:

- Tudo bem, tudo bem! Eu resolvo o mundo! Agora parem de olhar para mim!

Minha primeira atitude foi fazer textos educativos para toda a população. Muitos brasileiros me perguntam se minha pretensão não seria exagerada, pois escrevo somente textos em português. Assim, segundo o raciocínio destes brasileiros, gente que lê em outras línguas, como os ingleses, espanhois e, por que não?, os turcos, não conseguiriam ler e compreender o blog. Ora, não sei se vocês sabem, mas Fauro Goares é meu amigo imaginário. Fauro, o escritor do amor, me ensinou o seguinte: "Escreva com amor, pois a língua do amor é universal". É escrevendo com amor, pois, que consigo me comunicar com todo o mundo.

Muitas melhoras provenientes de meus textos já estão sendo observadas. O povo sul-africano já elegeu um jovem virgemariniano como presidente do país; os americanos já estão passando fome; os africanos já têm tanta fartura, que desperdiçam comida; e o jeitinho brasileiro está sendo ensinado em todas as escolas europeias.

Estas atitudes, entendo, causaram rebuliço. “Você está resolvendo alguns problemas mas está criando outros!”, disseram todos os leitores. Acontece que é preciso que todos passem pelas dificuldades capitais para que tomem atitudes reparadoras. Se o mundo inteiro fosse alimentado de uma hora para outra, os africanos seriam privilegiados, pois seriam os únicos com a experiência da fome.

A revolução é gradual. Somente daqui a cinqüenta e seis anos, quando todos já terão sentido bastante fome, é que a igualdade virá em sua forma plena.

Agora é possível entender por que a crise financeira mundial não é uma questão especulativa. A não ser que mexer meus pauzinhos contra todas as pessoas poderosas do mundo seja considerado "especulação" no seu vocabulário. Aí é uma questão meramente pessoal.

Enquanto tudo não se resolve, atitudes têm que ser tomadas. Resolvi propor o encontro de duas das maiores personalidades do mundo de hoje. Semanas atrás, entrevistei Obina e Obama separadamente, sem me dar conta de que eles tinham nome parecido. Foi quando entrei em um boteco sujo, imundo, encardido!, que me deparei com a realidade óbvia, ou como diria o gênio, ululante: “Obama é parecido com Obina”.

Você pode imaginar que não foi fácil conseguir uma conciliação entre a agenda de Obama e de Obina. Quando Obama podia numa quarta-feira à noite, Obina não podia por conta de um clássico inadiável; quando Obina podia num sábado chuvoso, Obama recusava pelo despeito da recusa anterior de Obina. Foi um duelo de egos quase insustentável que tive que conduzir com o tato que me é peculiar. Quando encontramos uma data em que, enfim, o grande encontro poderia acontecer, eu tive gripe mas fui assim mesmo, temendo que fosse a oportunidade derradeira.

Marcamos para a França, território neutro e que tem petit gateou, e nos encontramos todos com abraços efusivos. Obama se arrependeu na hora de ter feito birra com Obina. Ele percebeu que o flamenguista não teve nenhum prazer em recusar-lhe o encontro. Era o jeito do rapaz, indolente e genial assim mesmo. "Fica tranquilo, Obama. Fica tranquilo que Obina nem reparou. Ele é um cara simples", me apressei a dizer assim que percebi o constrangimento de Obama todo poderoso.

Rumamos apressadamente ao estádio em que disputaríamos uma grande pelada. A união dos líderes era urgente, e nada melhor que futebol para unir as pessoas. Óbvio que tive o cuidado de colocá-los no mesmo time. Eles ficaram felicíssimos com a grata surpresa: Chamei sósias para completar o time e garantir a segurança dos craques. Assim, Se um atirador de elite estivesse no local, teria que matar vários Obinas ou Obamas até achar o verdadeiro. É claro que o jogo ficou muito mais engraçado, também.

O único problema encontrado foi o de que faltou um Obama e um Obina. Chamei um rapaz da geral do Fountaineblezão vestido de homem-aranha para jogar no gol e um imigrante ilegal para completar a zaga. Posso dizer que a equipe de daltônicos que enfrentamos não viu a cor da bola laranja e vencemos por sete a um. Ninguém sabe explicar o gol sofrido.

O papo ocorreu assim que terminou o jogo. Foi grande a comoção internacional diante de um Obama suado e de um Obina de banho tomado e de terno. Os sósias ficaram ao fundo, observando - os Obamas com a mão no queixo e os Obinas tomando picolé.

- É uma imensa satisfação encontrá-lo, Obina. - começa Obama - Uma grande atitude deve ser tomada. Estou perdido. Necessito de toda sua sabedoria. Como faço para alimentar as crianças famintas do mundo?

- Você tem que dar comida para elas - diz Obina. - Assim como arma mata gente, comida mata fome. É simples. Eu aprendi isso quando criança e creio que devo informar às pessoas de todo o mundo toda minha sabedoria.

- Tem problema de dar frituras às crianças?

- Não. Sabe qual é a melhor comida para se alimentar um faminto? Comida. Qualquer comida, meu caro Obama. Quando chega para o seu almoço uma comida que você não gosta, você rejeita, mesmo que não tenha comido nada durante o dia inteiro porque sua fome dura um dia. A fome de um dia não é exigente como a fome de uma vida inteira. Percebe? Um sujeito com a fome crônica não diferencia lazanha de cebola, Coca de Dolly, pão italiano de alface...

- Desculpe, Obina. Mas o que é Dolly?

- Dolly é uma marca de refrigerantes muito conhecida em meu país.

- É boa?

- Não. Por isso que dei o exemplo em contraposição à Coca.

- Obina. Você me desculpe, mas o senhor está mais culto que o normal. Não estou ouvindo palavras de baixo calão, nada de simplório, embora a conversa esteja me agradando deveras. Há alguma coisa diferente no senhor que não posso precisar.

Obina havia ido embora e estávamos conversando com o sósia!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Entrevistas com lideranças - Obina

Os encontros com as lideranças de todo o mundo não têm sido muito frutíferos. Não sei se o caro leitor notou, mas os índices de fome na África continuam os mesmos, a desigualdade social do Brasil não diminuiu, o Bono Vox continua tendo muito sucesso e a crise está piorando cada vez mais. Não pensei que teria que incluir estes assuntos nas entrevistas. Achei que fosse implícito.

As lideranças mundiais estão muito despreparadas. Elas não entendem nada que não seja dito literalmente. Não contei na entrevista, mas disse para Obama que estava com água nos joelhos e ele não me ofereceu o banheiro! Tive dizer que queria urinar para que então ele tivesse a ideia de me encaminhar ao banheiro.

A única serventia destas entrevistas até hoje foi o aumento de visitas neste blog. Gente que me desconhecia mas que conhecia Obama, passou a me conhecer. E o contrário também ocorreu. Muitas pessoas não tinham ideia de quem fosse o presidente americano, e passaram a conhecê-lo sob minhas palavras. Não deixa de ser uma honra. Isto demonstra, porém, o perfil das lideranças de hoje. Elas não são boas no que fazem, são boas de audiência!

De hoje em diante, procurarei as autoridades que realmente podem mudar o mundo e as cobrarei por isso. Nada melhor que começar com Obina.

No Brasil, não é a autoridade política quem tem a verdadeira autoridade; quem manda é o craque. Nunca vi Obina jogar bem, mas tenho certeza de que é por puro azar. Alguém melhor que Henry, Eto´o e Ronaldinho só pode ser um craque de primeira. Além disso, é um craque que manda na maior torcida do Brasil e do mundo.

(Dizem que há dois times mexicanos com torcida maior que a flamenguista, porém o torcedor mexicano é passivo. Três torcedores mexicanos equivalem a um flamenguista, assim a torcida do Flamengo é maior.)

Encontrei Obina em sua casa, o Maracanã. Fazia sol e eram quatro horas da tarde, e fizemos uma entrevista ótima. Acontece que esqueci de apertar REC e meu gravador não ouviu nada.

- Obina, teremos que repetir a entrevista.

- Claro! É um prazer falar contigo. Mas só repito com uma condição?

- Qual, Obina?! Me diga logo que condição é essa!

- Só repito se você jogar uma bolinha aqui com o pessoal!

Engraçado como há exigências que são muito prazerosas e hábitos que são enfadonhos. Não só é claro que jogaria uma bolinha com o pessoal, como estava querendo isso desde o começo, mas sem jeito para pedir. Foram dois tempos de quarenta e cinco minutos. Pediram para eu vestir a camisa do Flamengo, mas eu me recuso a me vestir um manto que não seja do Palmeiras ou do Inter.

- Por que do Inter, rapá? - perguntou Obina, quase ofendido.

É que minha namorada me fez colorado.

Fiz quatro gols e percebi que dou azar a Obina. Ele não estava em um dia inspirado, já que perdeu seis gols na cara do goleiro. Teve um sétimo que nem goleiro tinha. Engraçado é que ele ria a cada gol perdido, como se gostasse disso. Eu experimentei perder um gol para tentar alcançar a alegria de Obina, mas infelizmente a bola entrou mesmo sem eu querer. Vida de craque é mais difícil do que parece. A foto é da comemoração pelo quarto gol que fiz, de bicicleta. Obina é um sujeito tão legal, que comemora os gols dos outros como se fosse dele. Quando tomamos um gol, Obina também comemorou.

- Obina! Vê se fica na sua! - eu disse, um pouco nervoso.

- Que foi? Foi gol!

- Cala boca, Obina. - e o nosso craque ficou amuado.

O jogo finalmente terminou, 3 a 1 (um dos gols que fiz foi contra), e começamos a entrevista bastante suados.

- Sorte que a entrevista não vai para a TV! Estou tão suado que quem assistisse sentiria o cheiro!

Eu continuaria este devaneio, mas estava latente em mim a responsabilidade social de quem tem um blog como este.

- Obina. Como faremos para resolver a crise no Oriente Médio?

- Onde fica? - respondeu o artilheiro com fina ironia. Sorri ao me deparar com tanta inteligência. Obina revelou ao mundo seu descaso com quem briga. Se o Oriente Médio não estiver em paz, Obina se recusa a falar sobre esta região. É um duro golpe na barriga dos briguentos.

- O mundo está diante de uma grande crise financeira com poucos precedentes na história. O que você acha disso? Você perdeu muito dinheiro?

- Olha, acho melhor acabar com a crise. - fiquei muito avermelhado ao perceber que toquei numa questão pessoal de nosso grande ídolo. Esta entrevista é para resolver o problema do mundo, não para fazer fuxicos!

- Desculpe, Obina. Há alguma solução para a crise?

- Tem, sim. Mas não vou falar.

Caramba.

- A fome da África?

- É o que eu sempre falo. Para resolver a fome da África, tem que alimentar os africanos. Só assim resolveremos este grande problema. Agora eu tenho que ir embora.

Obina se levantou e eu percebi que novamente esqueci de ligar o gravador. Comuniquei isso a ele, que respondeu com grande simpatia:

- Tudo bem, inventa!

E assim se encerrou a entrevista com o maior craque de todos, Obina.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Entrevista com Jô Soares


Jô Soares entra no estúdio aparentemente muito entusiasmado com a performance de sua banda. Dança um pouquinho e surpreendentemente ninguém da plateia acha ridículo. Estamos todos encantados com a presença deste grande homem. No centro de tudo, ele diz "uou!" para interromper a música e finalmente começar o programa.

- Boa noite! Estamos no ar ao vivo pela Rede Globo de Televisão e pelo blog Eu não sou virgem, Maria! - Jô espera os aplausos terminarem para começar as piadas - Vamos começar com respostas de vestibulares e provas de todo o Brasil! Pergunta: Qual é a capital da Guiana Francesa? Resposta do aluno: Paris Guianense!

O público todo ri, menos eu.

- Pergunta: Em que ano que o Brasil foi descoberto? Resposta: Eu não sei em que ano o Brasil foi descoberto, mas eu nasci em 1987 e sou brasileiro. Portanto é antes disso.

O público ri bastante e até eu ri, porque o aluno foi muito perspicaz.

- Pergunta: Qual é a altura de um elefante? Resposta: A altura, eu não sei, professora. Pensei que a senhora fosse perguntar o peso!

Nessa hora, eu já fiquei contaminado com a plateia e já ria sem pensar.

- Pergunta: Três homens e três mulheres compram 7 laranjas, quatro peras, um refrigerante e dois pães. Quantas comidas cada um deve comer? Resposta: Um terço para cada homem, as mulheres só cozinham!

Todos riem, e um sujeito ao meu lado começou o aplauso. Jô sorri como se não se importasse, como se já soubesse que é bom.

- No programa de hoje teremos André Ursípedes, o maior escritor do mundo contemporâneo! Ele orientou obras de Dostoievski, Saramago, Robinho, Chico Buarque e de outros artistas que não conhecemos! Três blocos de André! Um beijo do gordo!

Aplausos.


Segundo bloco


A banda toca, Jô Soares diz "uou!" e:

- Vem conversar comigo, André!

Eu me levanto deslumbrado com tantos aplausos. Estou acostumado a escrever neste espaço há tantos anos sem o aplauso físico! Agradeço efusivamente colocando a mão em meu coração. Quem me viu pensou que eu fosse chorar, mas meus olhos estavam vermelhos somente pelo excesso de luz. Caminho até o Jô, que tenta me dar um beijinho. "Só beijo pai, filho e sobrinho", disse no ouvido dele. Nos abraçamos, dei mais um aceno à plateia, e me sentei na parte destinada aos convidados.

- E aí, André! Me conta sobre seu novo livro!

- Ah, sim! Comprei ontem na Saraiva um livro sobre a Croácia!

- A Croácia é um país europeu que limita ao norte com a Eslovênia e Hungria, a nordeste com a Sérvia, a leste com a Bósnia e Herzegovina e ao sul com Montenegro. É banhado a oeste pelo Mar Adriático e possui uma fronteira marítima com a Itália, no golfo de Trieste. - diz Jô enquanto eu olho para ele estranhando - O país é membro das Nações Unidas, da Organização para Segurança e Cooperação na Europa e do Conselho da Europa, além de ser candidato a membro da União Européia. A Croácia foi convidada a integrar a OTAN em 3 de abril de 2008, o que deve ocorrer formalmente em abril de 2009. O gentílico para o país é "croata". O topônimo "Croácia" entrou na língua portuguesa por intermédio do francês croate ("croata"). Este, por sua vez, parece advir do eslavônico horvat, "montanheses". O gentílico "croata" é registrado em português a partir de 1538.

- Caramba, Jô! Quem tem você não precisa de Wikipedia, hein? Mas eu disse croaçã, não Croácia!

- Ah, sim! Mas acho que você disse Croácia, hein? Bem, croissant é uma palavra francesa, que significa crescente. Identifica um pão característico, de massa folhada em formato de meia-lua, feito de farinha, açúcar, sal, leite, fermento, manteiga e ovo para pincelar. Sua origem é atribuída a padeiros de Viena. Conta-se que em 1563, enquanto...

- Calma, Jô. Eu vou saber disso tudo no livro.

- Eu contaria de um jeito mais interessante, mas aqui é o convidado quem decide às vezes. A pergunta original não era sobre o último livro que você comprou, mas sobre o último livro que você escreveu!

- Eu escrevi um livro ótimo. O nome dele é "Tudo sobre croaçãs".

- Não é o mesmo que você comprou ontem?

- É, sim! Eu compro os livros que eu escrevo para forçar a editora a fazer mais livros!

- Agora não vai mais precisar fazer isso, porque um livro anunciado aqui é sempre muito bem vendido! E por que você escreve croaçã com cedilha e til?

- Não gosto do jeito correto da grafia. Na verdade, no livro não tem nada de croaçãs. Coloquei este título somente para propor uma mudança na língua, de croissant francês para o croaçã brasileiro. Fica muito mais bonitinho.

- Soube até que você tem um poema sobre isso...

- Tenho, sim. É sobre um engano idêntico ao que ocorreu hoje neste programa. É assim:

Vó,

Gostei muito da nossa viagem à Croácia.
Os croatas
são muito divertidos,
e foi muito engraçado
quando eles acharam graça
do seu chapéu.

Mas vó,
o que eu queria
era croaçã!

- Brilhante! Magnífico! Estupendo! Maravilhoso! Chamem a vinheta, por favor, para continuarmos a conversa no próximo bloco!


Terceiro bloco

- Voltamos com André, o homem do melhor blog do mundo. É verdade que o seu blog é o melhor do mundo?

- É, sim.

- Por quê?

- Porque você acabou de falar que ele é o melhor blog do mundo. Eu não ousaria discordar de uma pessoa como você.

Risos da plateia.

- Como que o blog ficou tão conhecido?

- Tudo começou pelo Orkut. Eu entro nas comunidades para divulgar o blog como se ele não fosse meu! Foi assim com a comunidade do Calypso, do Lenny Kravitz, do José Saramago, do Dostoievski...

- Esses dois te plagiaram, é isso?

- Mais ou menos. O Dostoievski não me plagiou. Fizemos um contrato em que eu escreveria todos os livros da melhor forma possível, ele me daria uma grande compensação financeira por assinar a obra e eu manteria o sigilo. Acontece que ele quebrou o contrato e eu pude revelar ao grande público este acordo.

- Você é incrível. Os livros que eu pensava que fossem do Dostoievski são ótimos. Posso dizer que sou seu fã desde criancinha!

- Obrigado, meu chapa. A partir do próximo ano, os livros passarão a ter a minha assinatura. No livro "O Idiota", vai ficar assim: "André Ursípedes, o idiota"!

Risos da plateia.

- No caso do Saramago, ele simplesmente me plagiou. Existia o meu livro, "Ensaio sobre a cegueta" e ele fez o "Ensaio sobre a cegueira", diga-se de passagem um ótimo livro, visto que copiou quase que inteiramente o meu. Para diferenciar um do outro, ele abdicou de toda pontuação.

- E o Chico Buarque mudou a letra toda de "A Banda" por sua causa?

- É! Ele escreveria "A Bunda"! Seria um fracasso completo.

- Concordo plenamente. Fica para mais um bloco?

- Claro!

- Chama a vinheta, pessoal!


Quarto bloco


- André, você está aqui há tanto tempo e não tomou nada!

- Estou com vergonha, mas morro de vontade de uma Coca geladinha!

- Alex! Traga uma Coca gelada para o rapaz.

Alex traz a Coca realmente geladinha, e eu aprecio com grande prazer.

- Sabe, Jô, o grande problema de tomar Coca em locais públicos é a vontade de arrotar. Olha! Só dei um golinho e já quero arrotar! Eu deveria ter tomado bastante água até passar a vontade de Coca. Você me perdoe, mas falarei menos nesse bloco. Pode descontar do cachê, que eu não estou precisando tanto assim de dinheiro. Quero que seja um cheque no seu nome!

- Por quê? Você também é meu fã?

- Não muito. Mas outras pessoas são. Aí eu vendo o cheque pelo dobro do valor!

- Você é mesmo um gênio. Nunca pensei em vender meus cheques.

- Eu vendo os meus sempre! Nem precisa ter fundo, sabe? Porque ninguém deposita. Eu nunca dou autógrafos para valorizar os cheques.

- É chegado o momento do fim desta entrevista.

- Ahhhhh - lamenta a plateia.

- Ufa. Preciso fazer xixi! – eu disse.

- Pode ir indo enquanto eu encerro o programa!

Fui correndo ao banheiro da produção e pude fazer o xixi mais esperado do dia.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Entrevistas com lideranças - Barack Obama

Estirado em sua sala oval onde recebe os convidados mais ilustres de todo o mundo, Barack Obama olhou-me firme e sorriu somente após a secretária lhe cochicar meu nome em seu ouvido.

- André.

- Que André? - perguntou Obama.

- O do blog que o senhor acompanha diariamente e faz comentários anônimos!

- Ah, sim! - disse Barack Obama visivelmente emocionado por receber minha visita. - Mas eu é que deveria visitá-lo!

- Sabe como é! Eu já estava nos Estados Unidos e resolvi dar uma passadinha. Até porque não gosto muito de receber visitas lá em casa. Tem que arrumar tudo, minha esposa fica tímida e não pode lavar roupa por um tempão... Melhor aqui!

Pude perceber primeiramente que ele brincava com os pés fora dos sapatos. Não que eu quisesse, mas olhei indisfarçadamente. Obama deu um risinho frouxo, chamou a filha mais nova e ordenou que lhe calçasse os sapatos. "E tira essa chapinha horrível! Você é filho do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, não do Michael Jackson!", disse Barack, mais severo do que a situação prescindia. "Hoje todo mundo quer ser negro!", completou. E ao notar que os olhos da filha estavam marejados, amenizou como o bom representante público que é: "Você está querendo chorar de vergonha, não é? Não chora, não. Você chora porque enquanto você calça o presidente, seu pai é presidente dos Estados Unidos. Você pode evoluir na carreira, minha filha. Eu mesmo já fui office boy."

Já calçado, olhei para Obama à procura de defeitos. Ele não é somente o primeiro presidente negro dos Estados Unidos; o povo ainda não conseguiu perceber que ele é, na verdade, o primeiro presidente perfeito deste país. Aliás, este é o único defeito de Obama: Não ter defeitos. É bonito, inteligente, negro, saudável, diplomado nas mais importantes faculdades do mundo, bem casado... Enfim, um homem sem defeitos! Eis um homem incapaz de xingar o craque adversário ou de ser injusto na comparação futebolística. Primeiro porque não gosta de futebol, depois porque sequer entraria numa discussão futebolística, sempre propícia a injustiças.

- Obama. Você me desculpe, mas quais são os seus defeitos?

Ele riu copiosamente, como se eu fosse a primeira pessoa que dissesse o que ele e todos os outros sabem. Bateu até palminhas, como se isso fosse um elogio.

- É sério, presidente. O senhor não tem defeitos, e isso pode ser muito ruim para o senhor. Imagine na hora de uma negociação, em que você não pudesse fazer um charminho? Ou então quem vai ter pena do senhor? Eu tenho um gato, o Jaiminho, que é muito mais bem tratado que os demais por ter um defeito na perna. O senhor não manca! Fora que nenhuma qualidade se sustenta sem um defeito. Sabe por que o mundo é tão injusto? Porque Deus é perfeito! Já basta Deus de perfeito, Obama!

- Eu fumo e tenho esta verruga aqui, ó. Serve?

- Fuma?! Você fuma, presidente?! Mas que boa notícia! Excelente! Graças a Deus, que o senhor fuma. Graças a Deus e ao seu ímpeto adolescente!

Se Obama se gabou do primeiro suposto elogio (quando eu disse que ele não tem defeitos), agora ficou insuportável! Ergueu o nariz e fiquei muito satisfeito por forjar mais um defeito no nosso presidente. Nosso, não! Deles! Agora Obama é também arrogante. Com três defeitos já se pode vislumbrar um bom mandato. Se não um mandato brilhante, pelo menos decente.

Esta entrevista já começou mais reveladora do que se esperava. Nas horas mal dormidas no hotel, pensei em como encontrar um defeito de Obama. Um já bastava. Passaria a entrevista inteira, se fosse necessário, procurando defeitos no homem perfeito. Um defeito já tranqüilizaria o mundo. Mas três?! Fiquei até emocionado, e o leitor mais atento perceberá que daqui em diante, o ritmo da entrevista cai um pouco, mas continua sendo uma brilhante entrevista.

Conversamos, então, um pouco sobre a sucessão presidencial. Não falamos mal de Bush porque tudo o que era para falar mal do ex já foi falado. Em nosso duelo intelectual, contava pontos elogiar a grande besta! "Tinha um belo cabelo", disse Obama. "Portado de um belo cabelo, penteava-se maravilhosamente!", completei. "Os óculos combinavam com as mechas grisalhas". "Menos, menos", disse eu já menos exaltado, cortando a brincadeira presidencial.

Contei que Bush havia lhe deixado alguns queijos no freezer presidencial. Obama chamou prontamente a filha e ordenou que verificasse o freezer. Ela estava com os olhos inchados, e, muito emburrada, dirigiu-se ao freezer. Cada passo da menina parecia passo de gigante. Criança emburrada é capaz de incomodar muito mais que adulto emburrado. Basta ver que a Michelle Obama estava de péssimo humor no canto, de braços cruzados e contando com a perna cada segundo que se passava desta entrevista. "Michelle tem ciúmes de você. De noite, passo mais tempo lendo seu blog do que na cama com ela!", disse Obama.

- Pai! O queijo está vencido!

Neste instante notei que estávamos falando tudo em português! "Eu aprendi português para ler seu blog, e as crianças aprenderam por influência minha. Michelle tem preguiça."

- Ah, sim. - respondi disfarçando o indisfarçável contentamento.

Era o momento de encerrar a entrevista. Se Michelle Obama já não agüentava mais, o que dizer de Juliana Ursípedes, que me esperava no hotel após ter recebido a promessa de que ganharia um sapato novo assim que eu chegasse? Entreguei a Obama um presente.

- Ah! Uma caneta! Era justamente do que eu estava precisando! Deixa eu ver o cartão.

- O cartão, você vê depois.

Eis o cartão:

"Obama,

Fiz questão de não tirar o preço desta caneta caríssima para que você soubesse do tamanho do apreço que nutro por sua pessoa. Grande homem!

Abraço,

André"

Quando me preparava para ir embora daquela casa branca e enjoativa, Obama me chamou ao pé do ouvido. “Preciso anunciar uma coisa! Faço questão que saia em primeira mão no seu blog!”, disse muito baixinho. “Fala! Fala!”, disse já pensando na audiência. “Vou fechar Guantánamo em um ano!”, disse em tom garboso. “É?”, perguntei. “É! Daqui a um ano esta prisão fechará para reformas! Ampliaremos Guantánamo e ela será a maior prisão do mundo!”, concluiu o grande chefe de estado.

Cacilda!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Entrevistas com lideranças - Michael Jackson branco


Continuando com a mania de entrevistar sempre pessoas opostas, o entrevistado de hoje é Michael Jackson branco!

O leitor deve se perguntar: "Como que o contrário de Michael Jackson pode ser ele mesmo?!"

Grandessíssimo engano do leitor. Michael Jackson não é mais ele mesmo. A pessoa mais diferente do Michael Jackson preto é o Michael Jackson branco!

O preto fazia sucesso, o branco não faz; o preto dançava, o branco não dança; o preto tinha nariz, o branco não tem; o preto lançava discos com músicas de sucesso, o branco não lança nem cds; o preto era o máximo, e o branco dá medo.

E vocês perceberão que o branco é uma simpatia e o preto não era.

Tudo tem a ver com o nariz.

Uma pessoa sem nariz é tão humilde, mesmo que ela seja o Michael Jackson! Ele também não tem nojo, para torcer o nariz.

Desta vez, resolvi aprender inglês para entrevistar os anglofônicos sem a ajuda de intermediários. Vocês viram o problema que deu na última vez!

Entrei na casa de Michael pela porta da frente. Ele mesmo me atendeu, e foi logo dizendo que dispensou todos os funcionários.

Neste momento eu pensei que a minha teoria estava corretíssima, que ele dispensou os funcionários porque não tem mais nariz. Como esnobar funcionários sem nariz? Engano meu:

"Dispensei os funcionários para pagar os advogados!", disse Michael sorrindo.

Os advogados devem ser muito caros. Porque muitos funcionários devem ter sido demitidos. Aquela casa é enorme!

"Michael, você se acha assustador?"

Ele me olha fundo nos olhos, percebe a minha cara de susto, e tomando um pouquinho de chá, pergunta:

- Por que eu me acharia?

"Por nada."

Michael não é gay. Nem heterossexual. Ele é o tipo de gente que é assexuada por dois motivos. Primeiro, que ninguém se interessaria por ele. Depois, que ele é tão estranho, que claramente não se interessa por ninguém. Ele não faz nenhuma concessão na personalidade para se tornar agradável ou aprazível.

Pergunta-se do nariz. Por que ele fez tantas plásticas? Para ele. Porque ele se gosta assim.

Todos já gostavam dele como ele era antes, menos ele. Se fosse pelos outros, ele não se transformaria nada; por ele, sim.

Michael branco é horrível. O racista de si mesmo.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O nariz e a arrogância (ler este texto antes da entrevista com Michael Jackson)

O nariz é o maior mentor da arrogância! Ele é para a arrogância o que o sertanejo é para o KLB! Ou para a arrogância o que o ânus é para um gay. Se não tivéssemos nariz, não haveria arrogância no mundo.

Porque é por ele que entra o cheiro. E a principal causa da arrogância é o cheiro. O arrogante se sente assim por pensar que cheira melhor que os outros. Há quem não se sinta arrogante até chegar perto de um mendigo. Qualquer um fica arrogante ao sentir o cheiro de um mendigo.

Os cariocas são arrogantes perto dos paulistas por saberem do cheiro do rio Tietê.

É por isso também que os mais ricos são mais arrogantes. Porque podem comprar os melhores perfumes.

A outra causa que dá ao nariz a autoria da arrogância é que só percebemos a curvatura da cabeça pelo nariz. Tape o nariz e incline sua cabeça para cima, numa típica atitude arrogante. A atitude não será mais arrogante!

Porque é só pelo nariz que percebemos arrogância.

Entrevistas com lideranças - Michael Jackson

Não gosto de entrevistar sempre as mesmas pessoas.

Se entrevisto o Bush numa semana, na outra não posso entrevistar alguém como o Colin Powel. Porque eu veria naturalizados os discursos escabrosos dos americanos! Me acostumaria e, pior, até concordaria com o que eles dizem, de tanto ouvir a mesma coisa.

Essencial para uma boa entrevista é o estranhamento. Talvez por isso seja bom entrevistar pessoas estranhas.

Semana passada entrevistei Fidel Castro. Hoje, entrevisto sua antítese.

Muitos pensavam que a antítese de Fidel era o próprio Bush. Mas os dois são muito parecidos! Os dois foram presidentes, os dois mentem, os dois se acham o máximo, e os dois não hesitam em matar alguém para o bem do próprio país. A única diferença que sou obrigado a concordar é que um tem barba, e o outro, não.

A antítese de Fidel é Michael Jackson.

Simplesmente porque um permaneceu o mesmo por toda a vida, e o outro muda sempre! O leitor pode argumentar que um tem nariz e o outro, não. Mas isso é de uma maldade que prefiro dispensar.

Leia mais sobre o nariz no texto anexo.

Michael Jackson, por não ter nariz, pode ser considerado o ser mais humilde do planeta.

Comecei pelo Michael Jackson negro por uma simples questão cronológica. Nas próximas semanas, entrevisto o branco.

Sem pressa.

"E aí, Michael! Qual é a boa?"

Michael me olhou esquisito. Pedi para o tradutor repetir a questão e Michael disse que prefere não responder.

Tudo bem, pensei eu. A gente só precisa responder o que quiser. Senão entrevista vira uma ditadura do entrevistador.

Eu não recusaria uma ditadura do entrevistador. O problema é que causaria uma certa recusa dos próximos entrevistados.

"Michael, qual é a sua idade?"

Ele soltou um palavrão em inglês, que eu reconheci somente pelo tom de voz. Detesto inglês.

Perguntei ao tradutor se havia algum engano, ao que ele respondeu negativamente. Esquisito!

"Qual é sua música preferida?"

Michael se levantou e se retirou da sala.

O tradutor deixou escapar um pequeníssimo sorriso, com tamanho suficiente somente para se perceber maldade.

O tradutor me enganou! Eu perguntava uma coisa banal, e ele traduzia uma ofensa retumbante! Sabe-se lá o que foi que ele perguntou a Michael. Mas foi muito engraçado, e ele ganhou uma gorjeta generosa por tentar me sabotar.

E não conseguir.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Entrevistas com lideranças - Fidel Castro

Era preciso fazer uma oposição. Após minha conversa com George Bush, era preciso alguém radicalmente diferente, antes que eu desanimasse ou ficasse idiota.

Eu poderia falar com Fernandinho Beira-Mar, mas ele é por demais poderoso e, sei lá, não gosto do ambiente de prisão. Me causa uma certa caustrofobia e me daria um medo enorme de ser confundido com um preso famoso. Se bem que é difícil ter um preso tão bonito quanto eu. O medo é que é uma cadeia de presos famosos, e como eu sou famoso, um carcereiro distraído poderia pensar que eu fosse o mais novo presidiário.

Passei árduas semanas desanimado. Fernandinho seria o cara certo. Eis que me veio à cabeça: - Por que não um cara barbudo, que fosse mais velhinho e que não falasse a minha língua? Um cara que fosse velho mas que não fosse inteiramente gagá; um cara imortal, mas que fosse preciso entrevistá-lo antes que morresse.

- Fidel Castro?

Sim, sim! O Fidel! Eu precisava muito entrevistar o Fidel. Comprei rapidamente as passagens minhas e de meus assessores rumo a Cuba! Não quis deslocar meu jato particular porque o aeroporto cubano não é confiável.

Fidel sempre me foi um conhecido próximo. Estivemos rompidos por muitos anos, pois desde 1968 ele enviava infindáveis convites para que eu fosse a Cuba, mas eu nunca os retornei. Quando nasci e tive condições de atender seus pedidos, a amizade foi pródiga e não foram raras as vezes em que fiquei até mais tarde na casa dele em partidas infindáveis de video-game.

Ontem falei com ele em 1978, cercado por diversos assessores.

"Fidel. Eu não gosto de gente que fala muito. Porque geralmente essas pessoas se acham importantes demais para serem ouvidas. Mas você é um caso particular, porque se acha importante e ao mesmo tempo é importante. E outra: Te acho inteligente. Você se acha inteligente?"

Ele sorriu com esta minha fala, porque elogios sempre caem bem. Elogio é melhor que Coca Cola, porque não enche a barriga. Melhor que pescar, porque não entedia. Melhor que voar, porque não precisa fazer check in. Mesmo assim eu não gosto. Depois explico por quê.

"Eu me acho inteligente, sim. Como você também se acha. Me lembro muito bem de quando você estava na terceira série e já dava aulas para a professora. Verdade que ela era muito burra, mas não deixa de ser admirável. Rapaz: Terceira série! Na quarta, você já dava palestra para os professores; e na quinta. Bem, na quinta série você abandonou a escola porque seus pais não tinham dinheiro para pagar e você foi descascar batata no nordeste.

O que eu quero dizer é que inteligência não é um mérito. É uma coisa que nos é dada sabe Deus por quem. Se você já era na terceira série, está claro que não fez nada para alcançar. Por isso estudar não traz inteligência. Se soubessem disso, acho que não existiria nem faculdade!

Eu sou muito inteligente e não me vanglorio por isso. Porque uso para o bem comum, para Cuba. Quer um pedacinho de bolo?"

"Não, não, obrigado. Acabei de almoçar!"

"Pega um, pega! Eu acabei de fazer!"

"Obrigado mesmo.”

“Pega, pô!"

"Tá bom, tá bom!" Peguei um pedacinho, e agradeci a Fidel por ele ter insistido, porque estava realmente uma delícia!

"Conversei com o Bush anteontem", eu disse.

"Ah é? Ele usa umas roupas adoráveis."

"Usa, sim. A gravata torta."

"É."

Engraçado. Às vezes a gente vai conversar com uma pessoa que não é nada e temos assuntos demais. Eu estava com o homem que implantou o socialismo em Cuba e não tinha um assuntinho sequer!

"Fidel. Tenho que ir jantar. Estão me esperando."

"Claro, meu filho. Vá, sim. Cuidado com a friagem, hein?"

Demos abraços calorosos e nos despedimos.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Entrevista com lideranças - George W. Bush

Hoje começam neste blog os relatos de minhas viagens pelo mundo para a reconciliação mundial.

Entrevistei todas as lideranças que me interessavam nos horários em que eu queria e nas cidades deles - pois o patrocínio do blog pagou toda a caravana. Elas precisam de gente que as trate como se não fossem celebridades para que lembrem o que foi que as tornou tão importantes assim.

Foram todas tão simpáticas, que isto serviu para engrandecer minha auto-estima e minha arrogância. Imagine que tomei tapinha nas costas do Bush! Que o Obama me serviu cafezinho! E que mandei o Bono Vox calar o boca enquanto ele cantava aquela música pela milésima vez.

Eu tentei ser humilde.

A minha missão era devolver a paz ao mundo. Mas paz não tem graça. Então todo o caos que retirei de uns cantos, devolvi em outros. Deixei Bush mais mansinho e Obama mais nervoso; O Kaká mais diabólico e o Edmundo um pouco crente.

Para abrir esta série, creio que o presidente dos Estados Unidos é a pessoa mais adequada. Não me importo com este país, mas é legal zombar do presidente nas horas em que as coisas não estão dando certo como se esperava.

O lugar em que Bush me recepcionou foi uma coincidência entre o que ele queria e o que eu desejava: Casa Branca. Porque era a casa dele e também o lugar mais interessante que creio que haja nos Estados Unidos.

Eu fui de terno, que era para poder vestir o botton do Palmeiras. Bush estava de terno porque ele fica mais à vontade assim do que de pijama. Vida de presidente é fogo.

"E aí, Bush!", eu perguntei. Um comprido silêncio se seguiu. Eu silenciei e fiz cara invocada, para pressioná-lo; mas ele não percebeu e foi somente um silêncio que me honraria muito depois, pois é quase que inimaginável um silêncio daquele tamanho em uma agenda tão atribulada.

Bush me perguntou, então, onde é que eu estava hospedado.

"Na casa do Obama!" Ele não tomou um segundo de susto e começou a falar sobre a Cláudia Ohana. Disse que a Playboy dela é um mito, um sucesso, mas foi quando ele começou a falar das novelas que eu percebi: Ele não ouviu corretamente. Confundiu Ohana com Obama. Ao que eu o interrompi: - "Não é Ohana. É Obama". E ele disse: "Ah, que susto! Pensei que fosse no Obama!"

Dei-lhe uma bronca preciosa! Ele é uma pessoa alucinada, que escuta o que quer. Mas parece que não ouviu minha bronca, pois logo a seguir me disse que eu não sou arrogante como pareço no blog. Eu lhe confirmei que eu não era arrogante, antes tímido! E que a timidez é a grande qualidade de nossa época, já que os tímidos não enchem tanto o saco. "Imagine, Bush!, que tem gente que vem me questionando sobre a autoria do Ensaio sobre a cegueta, obra que no mínimo inspirou o Saramago!"

"O que é Saramago?", Bush perguntou.

Eu ri e anotei para usar na minha entrevista intimidadora com Saramago.

"Bush", eu disse, "acho que é preciso sempre diferenciar o pai do filho. Meu pai, por exemplo, faz pizza e eu sou um gênio. Agora. Você e seu pai são idênticos!"

"É, o bigode lembra."

"Mas vocês não têm bigode!"

Bush fez a cara que melhor lhe caracteriza.

"Por que você quis a reeleição?"

"Sabe, rapaz, que quando entrei na Casa Branca o que mais me encantou foi um chocolatinho. Desde então, só penso nesse chocolatinho. É me dar um desses que eu assino qualquer coisa!"

Sabe como era o chocolatinho?

"Ele é pequeno, vem numa embalagem azul e está escrito BIS em cima."

"Tem muitos no Brasil!"

"Jura? Acho que vou para lá em Janeiro, então. Obrigado."

Precisava finalizar esta entrevista insuportável: "Que recado você mandaria para o Obama?"

Antes de responder, fez uma ligação em inglês e não entendi nada. "Eu falaria para ele aproveitar os queijos que deixei no freezer!"

Antes de me despedir, ele me deu um gilete para entregar para a Cláudia Ohana.