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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Primeiras Estórias Póstumas de Brás Cubas

Eu tinha parado de fazer isso. Mas tem horas que meu ego cobra-me a atenção, e é preciso tomar providências. Eu conheci um homem que não agradava o ego, e não aconteceu nada com ele. Mas poderia acontecer.

Bem, eu dizia que tinha parado de revelar farsas dos autores mundiais que utilizaram meus serviços de ghost writer. Eu não revelei durante anos, mas ultimamente tenho visto que a multa pelas revelações é bastante pequena. O Dostoievski cobrou apenas 30 rublos por eu ter dito que Os Irmãos Karamazov é um plágio de meu livro Os Irmãos Caras de Pau.

Há muita gente falando que o Saramago morreu de desgosto após eu ter dito que O Ensaio da Cegueira, que representa em sua literatura o que O Alquimista representa na literatura de Paulo Coelho, é um plágio de meu livro O Ensaio da Cegueta, lançado em 1935 pela editora Companhia das Letrosas. O nome da editora é um pouco peculiar, mas entenda. Ela foi fundada por duas irmãs leprosas e estudadas em letras. Uma queria que a editora se chamasse Companhia das Letras – nada tem a ver com a atual editora homônima – e outra queria que se chamasse Companhia das Leprosas. Resolveram misturar:

- Companhia das Leprosas.

Pois bem. Hoje desejo desmascarar dois autores muito reconhecidos em nossa língua: Machado de Assis e Guimarães Rosa. Machado é o que fundou a Academia Brasileira de Letras. Guimarães andava com os bois.

Antes, lembremo-nos de um romance meu do século XIX: Primeiras Estórias Póstumas de Brás Cubas. Este livro causou grande furor no meio literário. Por conta dele, recebi inúmeros convites para festas de 15 anos – é que na época, costumavam convidar grandes autores para participar de festas especiais. Faziam isso também porque minha predileção por bolinhos de queijo ficou famosa – e este era um prato essencial nestas festinhas.

Depois de alguns anos este livro caiu em esquecimento. Não é pela fraca qualidade literária que ele possa ter. Ou então por ser um livro datado. Nada disso. É que nos anos seguintes lancei livros tão espetaculares, que os antigos foram sendo descartados. Entenda: nenhum cérebro humano é capaz de acrescentar muita informação nova sem descartar informação antiga!

Mas Machado de Assis era um rato de biblioteca, como costumam dizer. Isso se deve aos dentes grandes que ele tinha. E também porque passava horas nas bibliotecas do Rio de Janeiro procurando livros raros e lendo alguns. Foi numa tarde cinzenta que ele se deparou com meu Primeiras Estórias Póstumas de Brás Cubas.

Ele achou a primeira parte (Primeiras Estórias) um pouco prolixa e repleta de neologismos. Preferiu a segunda, um pouco mais enigmática e dona de um estilo literário cru e realista. Machado, sabedor do esquecimento cotidiano do brasileiro, copiou esta segunda parte de cabo a rabo, e lançou seu livro Memórias Póstumas de Brás Cubas. Certamente ele tirou o título de uma reflexão minha feita no terceiro parágrafo:

“Esta parte do livro denominada Brás Cubas poderia muito bem ser denominada Memórias Póstumas de Brás Cubas. Eu só não dei este nome porque iria colidir com o primeiro ato do livro, denominado Primeiras Estórias.”

O livro fez grande sucesso na época, e é mui vendido até hoje. Pelo menos é o que a minha professora de primário dizia.

O resto da história você já deve saber. Guimarães Rosa por acaso descobriu meu livro e notou que Machado havia copiado a segunda parte, repito, de cabo a rabo. Ele poderia denunciar o grande escritor. Ele poderia achincalhar o grande escritor. Ele poderia manchar para todo o sempre o nome do grande escritor. Ele poderia mandar o escritor à puta que o pariu. Mas fez melhor. Deixou quieto e copiou a primeira parte, repito de novo, de cabo a rabo, e deu ao livro o nome de:

- Primeiras Estórias!

Sim, senhor.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Clássicos? Sei. - Raul Seixas, Eu nasci há dez mil anos atrás

O leitor não deve nem imaginar de onde surge gente pedindo minhas ajudas.

Quando eu era criança, lá pelos meus 3, 4 anos, recebi uma carta. A dona Estefânia, a empregada, achou muito estranho que tenha chegado uma carta para mim.

- Logo para você, a única pessoa dessa casa que não sabe ler! – olhou-me intrigada.

Eu olhei de volta daquele jeito que criança faz quando não entende algum espanto alheio. A ela restava somente ler tudo para mim, já que eu era, acreditem, um analfabeto.

"Olá, Senhor André,

Meu nome é Raul Seixas. É muito provável que você não me conheça, pois há pessoas muito mais famosas que eu que, ao procurarem seus conselhos, se surpreenderam por você desconhecê-las.

Sou um monstro do rock brasileiro e devo morrer em breve. Não sei do quê.

Escrevo esta carta para me aproveitar dos seus dotes artísticos e lhe pedir que me aconselhe sobre a música que fiz.

Ela trata de magreza e dietas. Espero que seja do seu agrado. Não tenha vergonha de mudar nada, ok?

Ei-la:

Eu nasci há dez mil anos atrás

Eu nasci
Há dez mil anos atrás.
E não vi nada nesse mundo
Sem uns quilinhos a mais.

Eu vi gorduras sobressalentes nas anoréxicas,
Um grande pneuzinho na orelha da Gisele,
Eu vi Jesus fazer polichinelo
para ficar magro quando fosse crucificado.
Eu vi...

Eu vi Noé precisando emagrecer para que a arca não afundasse,
Vi bebê recusando cebola pelo seu alto teor calórico,
Eu vi Nossa Senhora malhando para recuperar o peso que tinha
Antes do Espírito Santo tê-la engravidado.
Eu vi...

Eu vi Cleópatra com gordura na batata,
Eu vi Napoleão de mau humor por uma dieta,
Vi coelhos se reproduzindo
Só para queimar a gordura acumulada.
Eu vi...

Eu li todas as revistas de dieta,
Eu vi gente engordar sem deixar a boca aberta,
Vi mulheres emagrecendo três quilos em um mês
E engordando o dobro em uma semana.
Eu vi,

Eu vi um velociraptor enfartando de tanto comer dinossauro,
Vi mamute cortando os chifres para enganar a balança,
Eu vi gente reclamando de Jesus
porque ele achou os peixes bem em época de dieta!
Eu vi...

E aí, André? Gostou? Espero que sim.

Escreva-me o quanto antes com as mudanças propostas. E informe no verso da carta a quantia para a manutenção do anonimato.

Grande abraço,

Raul Seixas, um monstro do rock”

Quando dona Estefânia terminou de ler, fui logo ditando a carta de resposta, sem ao menos esperar que ela pegasse uma caneta e uma folha de papel:

“Caro Raul Seixas,

É claro que o conheço. Você não é aquele loirinho que apresenta o Domingo Legal?

Sobre a música, gostei muito. Mas imagino que você não quer uma boa música. Você quer uma música que faça sucesso. Para isso, lhe proponho que escreva para um sujeito que não é amigo meu, mas que certamente lhe dará bons conselhos para a fama e o sucesso. O nome dele é Paulo Coelho e atende pelo e-mail paulocoelho_vampiro@hotmail.com .

Qualquer coisa, escreva-me mais tarde. Desejo cinco mil reais para trocar de colchão.

Abraços efusivos,

André

Ps: Não ligue para os erros de ortografia desta carta. É que não sei escrever. Estou ditando para minha empregada”

E assim começou a grande parceria entre Raul Seixas, o monstro do rock, e Paulo Coelho.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Clássicos? Sei. - Drummond

Era uma segunda-feira chuvosa como a de hoje, quando Carlos Drummond de Andrade tocou à minha porta. Olhei pelo olho mágico e suspeitei que fosse o poeta. Mas precisei certificar-me, porque àquela época não era comum que gente importante deste tipo me procurasse. Também porque meu olho não distingue muito bem os velhos.

- Quem é?

- Sou eu - respondeu uma voz cansada. Drummond era genial, mas não era bom para coisas comuns e cotidianas, como uma pergunta corriqueira deste tipo.

- Eu quem?

- Ah, sim. O Drummond.

Abri a porta o mais rápido que pude. Que prazer, ajudar o poeta! Percebi, no entanto, que esta rapidez o assustou um pouco. Foi preciso um copo d’água para que se sentisse melhor e mais ambientado.

Conversamos sobre amenidades. Sobre as diferenças e semelhanças entre São Paulo e Minas, entre São Paulo e o Rio, e entre o Rio e Minas. Nada demais. No final, concluímos que as únicas diferenças dignas de menção eram que em Minas, o pão de queijo era preparado em casa, que no Rio tinha praia, e que em São Paulo não tinha praia nem pão de queijo - ou seja, esta cidade é um mal necessário.

Aproveitei que falamos em pão de queijo e o servi com um pão de queijo do dia de ontem, que para minha surpresa, o agradou.

- Está delicioso! É de ontem? Os pães de queijo ruins ficam melhores no dia seguinte. Ficam mais sequinhos.

Era, sim. Chegamos ao assunto principal. O assunto digno de movê-lo de Minas Gerais até minha casa.

- André, colega, preciso escrever uma poesia e estou sem assunto. Preciso que você me dê um tema!

Um tema? Na hora pensei em alguma guerra, em algum carro, em alguma coisa que me favorecesse.

- Palmeiras! Faça uma poesia sobre o Palmeiras.

- Eu não faria uma poesia de um time que não fosse meu.

- Então fale sobre pão de queijo, ué.

- Muito óbvio. Todo mundo já sabe que sou mineiro.

Foi então que eu disse, já sem paciência:

- Então olhe para minha cara e escreva o que lhe vier à cabeça!

- Tá bom.

Olhe olhava fixamente para mim, e fiquei um pouco constrangido. Pensei que fosse falar da cor dos meus olhos, ou da diferença de coloração que uma bochecha é capaz. Nada disso. Depois de cinco minutos:

- Posso recitar?

- Sim, sim. Pode.

- No meio do nariz tinha uma espinha
tinha uma espinha no meio do nariz
tinha uma espinha
no meio do nariz tinha uma espinha.

- Pare, pare! Pare, que não posso mais ouvir o que você acabou de escrever!
Se antes já estava envergonhado, agora fiquei mais envergonhado que criança feia. Era preciso algo que mudasse o assunto. A poesia era boa, mas o tema ruim. Neste momento, veio-me à cabeça um insight com destino à eternidade.

- Dirce! - era o nome de minha empregada. - Traga uma pedra!

sexta-feira, 6 de março de 2009

Clássicos? Sei. - James Joyce, O retrato do artista quando jovem

De Paulo Coelho a Márcia Cabrita, de Dostoievski a João do Rio, de Bruno Aleixo a Garrincha, muitos artistas devem a genialidade de suas obras unicamente a mim. James Joyce é um deles.

O caso de Joyce é peculiar porque não se tratou de uma consultoria ou de um serviço de ghost writer. Infelizmente é um caso de plágio. Um não. São vários e descarados plágios. Não há uma linha do autor escocês que não seja cópia ou inspirada em alguma ideia ou algum texto meu.

Não sei o que o autor pretendia com isso. Talvez ganhar uma fama repentina com a genialidade das obras ou então uma grande vergonha agora, quando o desmascaro. Aliás, por um acaso Joyce acha que a vida é um carnaval para passá-la toda de máscara? Eu recomendaria que tentasse disfarçar e imitar outros autores, porque não aguento mais estes gastos com advogados e advogadas.

O retrato do artista quando jovem? Cópia do meu O retrato do autista quando jovem. Ulisses? Cópia deslavada do meu grande livro O lisses. Por aí afora. Ouvi dizer, porém não posso confirmar, que o afamado autor chega a contratar detetives particulares para descobrir e copiar minhas vestimentas, minhas frases de efeito e, pasmem, meu time de futebol. Saibam agora de uma grande coisa: James Joyce é palmeirense. Pelo menos nisso, não me importo que me copie.

O descaro é tamanho, que fontes garantem que ele troca cartas com ninguém menos que José Saramago. Sim, o homem que me plagiou em O ensaio da cegueira. Veja o suposto conteúdo de uma das cartas.

"Caro James Joyce,

É muito bom que o senhor tenha aprendido português por conta do brilhante autor André Ursípedes. Eu já sabia desde a infância, mas se não soubesse faria o mesmo. Um fã tem que procurar ler a obra do ídolo em original.

Quero lhe confidenciar as últimas coisas que descobri sobre André. A namorada dele se chama Juliana, ele vai cortar o cabelo amanhã e o jogador preferido dele é Valdivia. Ah! Descobri também que quando criança, ele não tomava Coca-Cola em lata por achar que tem muito gás, e que até hoje morre de saudade do cão Cafu, que teve dos 6 aos 20 anos.

Esse homem é fogo. Será que ele fica muito bravo com nossos plágios? Espero que não, pois eu, José Saramago, queria, na verdade, impressioná-lo, mostrar intimidade. A intenção era somente de aproximação.

Espero que o senhor passe bem e que cesse o ciúmes. Porque André não é gay e não dará bola a nenhum de nós dois. Creio que seja melhor nós nos juntarmos. É uma atitude mais sensata.

Abraço efusivo,

José Saramago"

A resposta de Joyce:

"José Saramago,

Como tem passado em Portugal? Espero que os passos para a criação do fã clube de André estejam tão avançados como estão aqui. Sabia que a gente já tem até logotipo?

Tudo o que você disse sobre o André não era novidade nenhuma para mim. Acho que tem uma coisa que você não sabe. O sobrenome Ursípedes deriva da União Soviética. URSSípedes. A vida lhe tirou um S, não sei por quê.

Quero encontrá-lo urgentemente. Você é muito bonito. Adorei o seu perfil do Orkut.

Grande abraço. Estou a caminho de sua residência. Espero chegar antes desta carta.

James Joyce"

Um descaro, caro leitor. Um descaro!

É triste saber que senhores passam grande parte da vida se dedicando à minha vida enquanto poderiam se debruçar sobre meu blog e meus livros publicados pelo mundo. Eles tiveram o trabalho de plagiar livros meus linha por linha, mudando somente alguns pontos essenciais para criar-lhes uma forma singular de escrita, e agora se esqueceram de que o que faz de mim um grande homem não é minha grande vida, senão meus grandes escritos!

Isto é uma coisa a se lamentar. Outra é a perda de qualidade nas obras. O Retrato do autista quando jovem, que fiz baseado em toda minha infância, sugou muito de minha vitalidade durante a composição. Foi um romance que imperou sobre minha vida. Lembrar-me da infância não pôde deixar de ser doloroso; porém, o resultado do livro foi um fenômeno.

Um pequeno trecho a se apreciar:

"Minhas professoras começaram achando graça ao notar que eu entendia sete línguas. Chamaram o diretor para ver, e ele teve um mal súbito, o que ajudou a tirar meu autismo do foco durante alguns meses. Quando se esqueceram do diretor, porém, chamaram meus pais para lhes divulgar a grande sentença:

- Seu filho é um autista! Um autista!

Foi o momento de maior alegria na vida de meu pai. Como se sabe, autismo é genético, e ele estava desconfiando deveras de sua paternidade."

Não comprem mais os livros de James Joyce. Prefira os originais.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Clássicos? Sei. - Chico Buarque - A banda

Chico Buarque diz coisas inteligentes mas não é arrogante; é bonito mas não tem o nariz empinado; tem olho verde mas não é nazista; tem voz de pato e mesmo assim canta. Enfim. Ele é o que se pode chamar de um cara legal.

Nos idos anos 70, não passava um dia sem que ele tentasse falar comigo. E não tinha um dia em que eu retornasse as ligações dele.

Ele queria tanto lutar contra a ditadura, mas eu apoiava veementemente os militares! Ele precisava de mim, mas era contra mim! Um dia ele perguntou:

- Por que você apoia os militares?

E eu respondi, me lembro bem: - "Por causa do verde. Adoro verde! No dia em que a juventude for verde, eu a apoio!"

Chico riu, e disse que me mandaria uma carta em sigilo. Eu respondi que nunca quebraria o sigilo, a não ser que ele fosse flagrado praticando relações sexuais na praia.

Eis a carta:

"André, meu chapa,

Eu deveria odiá-lo. Você apóia os militares no momento em que o Brasil mais precisa que você seja contra eles! E só por causa da cor! Só de pensar que se eles fossem azuis, hoje estaríamos em um momento diferente e melhor, sinto desânimo e chego a ter calafrios!

Mas é impossível odiar alguém tão brilhante, tão genial. Quinta-feira passada cheguei a compor uma música de apoio aos militares unicamente por sua influência. Rasguei rapidamente, antes que alguém visse. Creio que foi inútil, pois a vermelhidão na minha face me denunciava como o papel higiênico sujo denuncia a bunda.

Políticas à parte, vamos à arte.

Estou com passagens compradas para Salvador para criar uma nova onda musical no Brasil. Já tem até nome: Axé.

No axé, valorizar-se-á o corpo e menos a música através da música. Fui claro? A música servirá para o corpo feminino como o Dedé serve para o Didi, nos Trapalhões.

Já compus a primeira música, "A Bunda", que segue no verso desta carta. É claro que preciso da sua ajuda. Melhore algumas concordâncias. Empreste-me sua genialidade.

Você acha que umas dançarinas cairiam bem?

Abraço,

CB
"

Eis alguns trechos do original de Chico:

"Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a bunda passar
Cantando coisas de amor...."

"O homem sério que contava dinheiro parouO marceneiro que consertava a pia parouA namorada que tomava refrigerante arrotouPara ver, ouvir e dar passagem"

"O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensouQue ainda era moço pra sair do atraso e traçouA moça feia debruçou na janelaPensando que o vizinho tocava uma pra ela"

E a minha resposta à sua carta:

"Chico,

Eu gosto tanto de você, que nem cobrar pelos serviços, vou. E também você não precisava escrever de verde. Não apoio mais os militares. A nova onda é o vermelho!

Acho melhor você deixar o axé para depois. Para os anos 90, mais precisamente. Porque este é um movimento essencialmente burro. Se vir de alguém inteligente como você e numa época inteligente como essa, não terá o menor efeito. Sem dizer que isso mancharia a sua carreira.

Quero dizer. Você ganharia muito dinheiro agora e nada mais tarde. Fiz as contas, e creio que se você viver até 2010, será até mais lucrativo que você não seja o precursor do axé, porque os salários menores até lá ultrapassarão o grande dinheiro que você receberia hoje.

Fora que a letra está horrível. Ninguém pára para ver a bunda passar. A pessoa está passando e vê a bunda de rabo de olho. Parar para ver bunda é meio gay. Você é gay?

Fiz umas alterações que muito vão agradá-lo. Agora não é mais "A Bunda". Mudei para "A Banda". Percebe que fica melhor? A gente pára para ouvir música, principalmente se for uma banda interessante. Pense no seguinte: Uma bunda passando na rua estará sempre coberta por um shorts, não é? A banda, não! A banda estará toda exposta, e todo mundo poderá olhar para ela.

Tenho só uma lição de casa. Se quer que te chamem de gênio, espalhe como quem não quer nada que a banda quer dizer, na verdade, democracia.

Vai ficar chocante.

Na outra folha está a música prontinha.

Grande abraço!

André Ursípedes

ps: Pergunta para seu avô o significado de aacheniano.
ps2: Marceneiro não conserta pia.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Clássicos? Sei. #3 - Fiodor Dostoievski, Crime e Castigo

Todos sabem da minha incomensurável capacidade artística. Por isso, artistas de grande gabarito internacional sempre me pedem auxílio. Sucesso na certa. Picasso, Dostoievski, Eça de Queirós, Disney, Jorge Amado, Machado de Assis, Robinho, Santos Dumont, Michelangelo. Isso para citar alguns.

Hoje quebrarei o sigilo por conta de uma quebra de contrato de meu ex-amigo Fiodor Dostoievski. Ele achou que não haveria problema nenhum em não manter uma alimentação balanceada. Mas aquilo está no contrato. Amigo meu se alimenta bem. É que depois vêm todos reclamando do colesterol, da gordura trans. E eu não tenho paciência para isso! A arte me consome.

Era uma terça-feira gelada quando chegou à minha casa uma carta com as seguintes palavras:

"André,

Desculpe incomodá-lo, mas sua ajuda se faz tão essencial quanto o ar que respiro.

Descobri seus dotes na Feira Internacional de Literatura Russa, quando você não foi convidado por não ser russo. O que mais se ouvia nos corredores eram lamentações por sua ausência. "Como seria bom se o André fosse russo!", diziam, "Assim ele estaria aqui neste momento dando o ar da graça!"

E então descobri que Fernando Pessoa, Shakespeare, Nietzsche, Rubinho Barrichello, Paulo Coelho têm todo o brilho artístico creditado ao seu auxílio. O Rubinho Barrichello e o Paulo Coelho não seguiram suas dicas à risca – mas pelo menos são famosos.

Estou, pois, escrevendo um livro de nome Castigo e Crime, que envolve um sujeito que é castigado por um crime que cometeu. Ele vai matar uma velha. O nome que pensei para ele é Pedro.

O que você acha?

Os originais estão nesta carta e peço encarecidamente que você leia inteiro antes de me devolver.

Agradecidamente,

Fiodor Dostoievski"

A minha resposta não poderia ser outra.

"Senhor Fiodor,

Não peça desculpas em me incomodar. Sua impertinência será esquecida no exato momento em que cair na minha conta a sua contribuição. O número da conta está no papel anexo. Banco Bradesco, sim?

Seguinte. Pedro não é um bom nome para um romance russo. Eu lhe chamaria Raskólnikov. Faça um romance bem denso, de muitas páginas. Será um clássico.

Outra. Não chame o livro de Castigo e Crime. Pensei em um bem melhor, que você sequer teria imaginado: Crime e Castigo. Nessa ordem.

Os originais estão muito bem escritos. Sua caligrafia é exemplar. Quanto à qualidade do texto, nota seis antes das minhas correções. Dez agora.

E esta é para você não passar vergonha: imprensa é com i de Israel. Não escreva emprensa com e de Everaldo. Não confie muito no corretor do word, que eu imagino que na Rússia do século dezenove ele não exista.

Grande abraço,

André"

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Clássicos? Sei. #2 - José Saramago, Ensaio sobre a cegueira

Vocês sabem muito bem que sou muito bem plagiado. Há a diferença entre o plágio comum e o belo plágio.

Eu sempre fui muito bem plagiado. Por exemplo.

O escritor português, José Saramago, me plagiou no livro Ensaio sobre a cegueira. É claro que eu escrevo corretamente, utilizo vírgulas e falo português com consoantes. Mas foi um belo plágio. Um belíssimo plágio.

Agora. Tem gente que anda fazendo blog só porque gostou do meu. Plágio por isso, não é. É uma grande alegria, mas não é por isso que vou demonstrar grande entusiasmo por aqui. Aqui não é lugar de entusiasmos. Não. Aqui é lugar de grandes textos, de grandes idéias e de minha imensa genialidade.

Parabéns a quem me imitou. É bom saber de onde se plagiar. Eu mesmo plagio a mim mesmo e ao senhor Ewerton Clides, que é meu amigo imaginário.

O escritor José Saramago me plagiou no livro Ensaio sobre a cegueira. Eu lancei, anos antes, o livro Ensaio sobre a cegueta. É um livro muito pouco divulgado, embora tenha uma qualidade muito superior. É como a diferença entra Dostoievski e Harry Potter na terceira série infantil. Harry Potter é muito mais conhecido, mas quem é melhor? Hum.

Como o meu caríssimo leitor não deve ter lido meu livro pela menor carga publicitária, mostro-lhe um pequeno trecho.

"A pior coisa de ser cego não é não poder olhar. É não poder olhar as pessoas que olham assustadas para você. Eu nunca fui cego para sentir isso; mas quem foi cego também não sentiu. É uma coisa que se sente pelos outros, por isso é necessário ter muita compaixão para isso. E eu não tenho compaixão. Só falo porque imagino como seria ter compaixão.

Ela andava com o poodle labrador e a varinha de cegos. No meio da rua, deixou o poodle labrador um pouco de lado e, com a varinha no lugar onde estaria um pênis se ela fosse ele, girou 360 graus. Assim, pôde cuspir o catarro que a incomodava sem acertar ninguém."

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Clássicos? Sei. #1 - Eça de Queiroz, O Primo Basílio

Bem, meu contrato com os grandes escritores expirou na última sexta. Eles não são de nada, e eu sou demais.

Ele me enviam os originais com as idéias horríveis, textos mal escritos, e eu transformo tudo em clássico!

Eça de Queiroz, Dostoiévski, Machado de Assis, Oscar Wilde, Viginia Woolf, Schopenhauer, Albert Camus, Joaquim José da Silva Xavier, Pero Vaz de Caminha, Monteiro Lobato, Nietzsche, Camões, Rubem Braga, Kafka, Sartre, Cícero, Jorge Amado, Platão, Balzac, Victor Hugo...

Vou publicar a partir de hoje, os originais que todos estes canalhas me enviaram seguidos dos clássicos em que os transformei. Começaremos com Eça de Queiroz, em Os Maias. Neste caso, publicarei a carta que estava anexa aos meus originais - os que valem, os que alterei.

:

Caro Eça,

Não se esqueça de que os pagamentos vencem no próximo dia dezesseis.

Recebi os novos originais, e já lhe informo que mudei inclusive partes do enredo.

Não altere nada antes de me informar.

Veja um pequeno trecho dos originais que você me enviou:

"Luísa parecia que estava com sono ou entediada, e bufou. Limpou com a própria carta, a marca que o macarrão de Juliana deixou-lhe nos lábios, o que nos leva a pensar que bufou por conta de um pequeno enfado por Juliana. De repente se deu conta de que era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e ficou cheia de si! Sentiu-se melhor que antes (se fosse uma prostituta, o próprio preço teria inflacionado).

Enfim, no meio daquela tarde chata, foi bom receber a carta."

Agora, confira como será publicado, após as minhas alterações:

"E Luísa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saia delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!"

Percebe como fica melhor? Percebe que deveria pagar tudo em dia?

Tenha mais vergonha, Eça, antes de me enviar os originais. Assim ficarei tímido na próxima vez em que nos encontrarmos para um chop matinal.

Abraços,

André Cintra